MANOEL BALTHAZAR PEREIRA DIEGUES JÚNIOR

MANOEL BALTHAZAR PEREIRA DIEGUES JÚNIOR

MANOEL BALTHAZAR PEREIRA DIEGUES JÚNIOR[1] (1852-1922)

 

Diegues Júnior (o segundo ou o pai), Balthazar Diegues com ou sem a letra “h”, com “s” ou com “z” são algumas das formas de registros localizadas para designar esse intelectual que nasceu em Maceió/AL, no dia 29 de outubro de 1952 e faleceu no dia 29 de agosto de 1922.

Deputado provincial e estadual, professor, jornalista, geógrafo, Manoel Balthazar Pereira Diegues Júnior, bacharelou-se em Direito (1877) na Faculdade de Direito de Recife e foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas no período de 1901 a 1922. Era filho do primeiro Manoel Pereira Diegues com dona Maria Joaquina da Fonseca Diegues.

Seu nome consta no Diccionario Bibliographico Brazileiro de Sacramento Blake (1900, p. 34); no ABC das Alagoas(BARROS, 2015, p. 630-1) e nos esboços biográficos escritos por Craveiro Costa[2]na Revista de Ensino de Alagoas (1927) em seção designada “Os grandes educadores alagoanos” e Vaz Filho (1962). Concluiu o ensino secundário no Liceu Alagoano e cursou a cadeira de Pedagogia no Curso Normal de Maceió, tendo lecionado Língua Portuguesa no Colégio 2 de dezembro, no qual chegou a vice-diretor; e História e Geografia, no Colégio Santa Genoveva, ambos em Recife. Em Maceió, foi lente de Geografia do Liceu Alagoano, tendo produzido o Compêndio de Geografia e Cosmografia (1890), dedicando-o as suas alunas da escola Normal. Além dessa, escreveu outras obras, dentre as quais destacamos: Gramática Elementar da Língua Nacional (1876); Liberdade de Ensino (1882); A Descoberta da América (1883) e Teoria das Preposições: Curso de Língua Nacional (1893).

Além da vasta e variada produção de Diegues Júnior, destaca-se na sua trajetória os cargos e/ou funções que exerceu no âmbito educacional, principalmente a de Diretor da Instrução Pública por duas ocasiões, de início interinamente, em 1886, quando criou o Instituto dos Professores (1887) e, posteriormente, na República como titular, quando criou o Pedagogium Alagoano (1891), publicando, quinzenalmente, a Revista do Ensino[3].

Com efeito, as mudanças políticas ocasionadas pelas frequentes trocas de Presidentes na Província das Alagoas, bem como a alternância de poder e disputas entre conservadores e liberais e a grande quantidade de reformas para organizar a instrução pública, propostas em Leis e Decretos que não chegavam a se efetivar, ensejaram a efetiva participação de Diegues Júnior tanto na organização quanto na modernização da educação em Alagoas, cujo enfoque se deu em temas relativos a formação dos professores e a defesa da prática dos métodos modernos, sobretudo os que se vinculavam a vaga intuitiva. Do último quartel do século XIX aos primeiros decênios do século XX, Diegues Júnior esteve envolvido nesse movimento, inclusive em embates, como foi o caso do que travou com o professor da cadeira de Pedagogia da Escola Normal de Maceió, Joaquim José de Araújo, autor da obra Compêndio de Pedagogia Prática[4] (1886) e do qual tinha sido aluno. Na querela, publicada no jornal O Orbe, Diegues Júnior criticou o ensino normal ministrado à época e o compêndio de Daligault, pronunciando-se nos moldes de quem tinha conhecimento da causa pedagógica e, portanto, autoridade para defender a modernidade na instrução, sobretudo pela introdução das lições de coisas e do método intuitivo:

 

Conheci o compendio de Daligault e o estudei com aquella lucidez de intelligensia e força de comprehensão que tantas vezes enthusiasmou meu ilustre mestre, o dr. Araújo, quando via em mim bem empregadas suas lecções; e conheço theorica e praticamente a excelência de outro regimem que com mm. Pape Carpentier substituiu na França a rotineira lecção de Daligault. (DIEGUES JÚNIOR, 1886, p. 2).

 

Em defesa do método intuitivo e criticando o ensino normal ministrado aos alunos-mestres, sobretudo pelas referências que julgava ultrapassadas, Diegues demonstrou sua adesão a uma possível modernidade pedagógica. Com esse intento de renovar a escolarização alagoana, também publicou no mesmo periódico, sob o título de Regimem Escolar, indicações feitas aos professores, transcrevendo fragmentos dos escritos do Relatório produzido pelo francês Celestin Hippeau em relação a educação, na Argentina. Nessa perspectiva, declarou Diegues Júnior: “[...] Não faço questão dos programmas pomposos, faço questão dos méthodos que aproveitem o tempo do alunno sem lhe cançar o cérebro com lecções importunas”. (DIEGUES JÚNIOR, 1886, p. 2) Na mesma direção de reafirmar seu propósito e atuação em favor da modernização da instrução pública alagoana, declarou:

 

Introduzir no regimen das escolas os milagrosos systemas que não são mais novidades nem na Alemanha, nem na França, nem na Itália, nem nos Estados-Unidos, nem na República Argentina, é meo maior empenho, como diretor geral da instrucção pública nesta província.

 

Na mesma direção e em defesa da modernização dos métodos, assumiu o posicionamento de que a forma mais apropriada para a promover era mobilizar os professores a se reunirem e participarem das conferências capitaneadas pelo Instituto dos Professores. O convite-convocação aos professores circulou na imprensa alagoana.

 

Convindo muito ao progresso da instrucção publica que os snrs. Professores conferenciem entre si sobre as questões de educação e ensino e procurem- se ajudar mutuamente no sentido de transplantar para as escolas públicas desta provincia os methodos avantajados que tanto preconisam os progressos da pedagogia, prestará um real serviço á causa pública o instituto, se conseguir que os professores nas demais cidades e villas se constituam em secções do Instituto, fazendo reuniões em dias determinados sem prejuízos das horas lectivas e se relacionando com o Instituto sobre o resultado dos trabalhos das referidas secções. (DIEGUES JÚNIOR, 1886, p. 2).

 

Nos anos findos do Império, Diegues Júnior organizou a Consolidação das Leis da Instrucção Pública[5] (1889), produção na qual selecionou, reuniu e divulgou as “decisões, regulamentos e instruções” como vestígios do que se pensou e foi normatizado para a educação de uma época, mas também como indicação do que ainda estava em vigor no âmbito da vasta legislação educacional de Alagoas no período do Império. Destaca-se o contexto demandado para a produção da citada obra, visando atender a uma necessidade de organização da legislação educacional e, igualmente, da administração da época, conforme deixou antever o Presidente da Província de Alagoas, José Cesário de Miranda Monteiro de Barros, ao pronunciar-se sobre o assunto: “[...] A legislação sobre instrucção pública é um cahos, que convém quanto antes dissipar, tornando-a perfeita e clara para a boa regularidade deste importante ramo do serviço público [...]” (BARROS, 1888, p. 8). Já o Presidente Aristides Augusto Milton, conforme se veicula na obra Consolidação das Leis, elaborada por Diegues Júnior”, declarou:

 

O Presidente da Provincia, attendendo á necessidade de reunir methodicamente, em um só acto, as diversas disposições de lei, regulamentos e divisões, concernentes à instrucção pública, esparsas na legislação da Provincia; Resolve approvar, mandando que seja observada, para todos os effeitos, a consolidação, que a este acompanha, elaborada de sua ordem pelo Bacharel Manoel Balthazar Pereira Diegues Júnior, ex-director geral da mesma instrução pública, e ordena que neste sentido espeçam-se as necessárias comunicações. (MILTON, 1889, s.p.).

 

Com efeito, a vinculação de Diegues Júnior a causa da instrução, apresentando proposições tanto para a sua organização quanto para a modernização, deu-se em várias frentes, de modo que ocupou cargos de direção (da Instrução Pública, do Pedagogium, de Grupo Escolar); integrou comissões para organização de novos regulamentos, conforme consta em Mensagem do governador Clodoaldo da Fonseca, no ano de 1913, na qual também registra que a nova organização proporcionará ao Estado “[...] methodos e processos de ensino, consoantes à moderna pedagogia (FONSECA, 1913, p. 13); produziu compêndios, emitiu instruções aos professores, proferiu conferências. Sua vasta atuação foi reconhecida por seus contemporâneos e muitos outros educadores que registraram, posteriormente suas contribuições.

Na perspectiva de demonstrar que Diegues Júnior foi um expert, selecionou-se outras fontes em busca de rastros ou ecos que possibilitassem reafirmá-lo enquanto tal. Nessa perspectiva, destacaram-se os seguintes documentos: o Relatório que apresentou no exercício do cargo de Diretor da Instrução Pública ao Governador do Estado de Alagoas, Gabino Besouro, em 1892 (http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=872733&pasta=ano%20189&pesq=Gabino&pagfis=58); a Revista do Ensino de Alagoas (1891-1892) (https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/179870), vinculada ao Pedagogium Alagoano, também produzida nesse contexto, com enfoque nas instruções provenientes da legislação educacional, divulgadas nesse periódico por Diegues Júnior, no exercício da função de Diretor da Instrução Pública.

Reafirma-se assim, que foi mais especificamente na sua segunda atuação como Diretor da Instrução Pública, que Diegues Júnior divulgou suas proposições voltadas à formação dos professores e modernização dos métodos de ensino. Com esse intento propôs, dirigiu e atuou junto ao Pedagogium, além de ter feito circular instruções aos professores por meio da Revista do Ensino de Alagoas que foi publicada nos anos de 1891 a 1892.

Nessa perspectiva, declarou em seu Relatório (1892) apresentado a Gabino Besouro, governador do estado de Alagoas à época: “[...] Comecei a exercer o cargo de Director da Instrucção Pública quando se preparava o Estado para sua organização definitiva” (DIEGUES JÚNIOR, 1892, p. 9). No citado documento, Diegues também menciona a legislação sobre a qual se pauta sua atuação, citando as instruções que emitiu e que estão registradas na Revista de Ensino. Com efeito,o Decreto n. 89 de 12 de Março de 1891, veiculado na primeira página do citado periódico já anuncia a finalidade da nova legislação - “[...] illustrar os mestres e methodisar o mesmo ensino nas aulas primárias” (REVISTA DE ENSINO, 1891, p. 1).

Na mesma direção, o Artigo 5º do citado Decreto informa como uma das atribuições do diretor da instrução pública “[...] expedir instrucções sobre a organisação do ensino e aplicação dos methodos e processos nas escolas” (Ibidem). No Relatório produzido por Diegues, ele informa sobre as instruções expedidas por meio de Portarias, todas veiculadas na Revista de Ensino. Destaca-se as instruções publicadas por Portaria emitida em 31 de Março de 1891, nas quais registram-se detalhamentos acerca de como deveria ser desenvolvido o programa das matérias de ensino de modo geral, e as atividades, em particular.

Sobressai nas instruções emitidas, recomendações pela “[..] sua fiel observância, afim de se lançar base segura sobre a renovação dos methodos tão solemnemente condemnados pelo mundo civilizado e tão tenazmente seguidos por nós [...]”, conforme destacou Diegues Júnior (REVISTA DO ENSINO, 1891, p. 16). No mesmo periódico, veículo oficial de divulgação das novas orientações, localizou-se o seguinte “Aviso”.

 

A Directoria da Instrucção Publica avisa aos Snrs. Professores, inspectores escolares e superintendente que as deliberações concernentes a administração do ensino uma vez publicadas na Revista, deverão ser executadas independentemente de qualquer comunicação. (REVISTA DO ENSINO, 1891, p. 24).

 

Ressalta-se assim o caráter de regulação que assumia as instruções e a Revista de Ensino, publicadas à época. Ademais, a autoria e autoridade da qual se investia ou se reconhecia (em) Diegues podem ser percebidas também em enunciações extraídas do seu Relatório, em pistas discursivas sugeridas pelo uso do verbo para demarcar a autoria ou a proposta, mas sobretudo, por uma possível expertise, respaldada por suas leituras e conhecimentos. Nesses termos, as declarações seguintes sugerem esse entendimento:

 

As ideas, que a respeito me crearam a leitura e a experiencia, consagrei na proposta de 14 de fevereiro que se converteu no decreto de 12 de março de 1891. Em tudo tomei por base a organização escolar americana que reputo a mais perfeita, mais pratica e de mais uteis resultados (DIEGUES JÚNIOR, 1892, p.10).

 

Além da sobredita declaração e outras tantas em que o seu conhecimento de pedagogia era realçado ou reafirmado; também em relação ao Pedagogium, cabe ressaltar que Diegues reivindicava para si sua criação, tanto em relação a proposta, quanto a sua anterioridade, razão pela qual pronunciou-se em discurso proferido na sessão solene de inauguração do referido Órgão:

 

Devemos-nos orgulhar de ser o nosso Pedagogium o segundo estabelecimento deste gênero que se cria na União Brazileira, e seria ele o primeiro si minha voz tivesse sido ouvida pelos legisladores de 1889, quando em meu relatório lhes pedi essa importante instituição que na Austria tanto tem contribuído para engrandecer o magistério público. (DIEGUES JÚNIOR, 1891, p. 3)

 

A vasta atuação de Diegues Júnior na vida pública administrativa e educacional, na então Província das Alagoas, posteriormente, Estado de Alagoas, desde o último quartel do século XIX aos primeiros decênios do século XX, permite-nos, hodiernamente, mencioná-lo como intelectual (VIEIRA, 2011) ou um expert (SILVA NETO & COSTA, 2020) em matéria educacional.

Indícios dessas caracterizações podem ser identificadas em registros feitos por seus coetâneos ou em outros tempos, mas também educadores e jornalistas que reconheceram sua longeva e qualificada atuação em prol da educação alagoana, conforme escreveram em seus esboços biográficos, Craveiro Costa (1927) e Vaz Filho (1962).

Considerando as caracterizações indicadas por Vieira (2011)[6] para o reconhecimento de um intelectual, reafirma-se na atuação de Diegues que essas foram mobilizadas em sua trajetória, sobretudo por sua incondicional vinculação a causa da instrução em Alagoas, fosse em prol de sua organização ou modernização.

Nessa direção, Craveiro Costa (1927), ao pronunciar-se sobre Diegues Júnior, afirmou: “[...] Esse soube amar deveras a sua terra e ser útil à sua gente”. [...] “Pelo que fez pela educação da mocidade bem pode ser um modelo cívico”, reafirmando-o como um intelectual. Ainda concordando com o citado autor para quem [...] a feição mais bela do seu espírito era a do professor [...]; foi essa que se optou por destacar, nesse texto.

Vale ressaltar que as atribuições supracitadas são mencionadas não para fins de enquadramento, mas sobretudo, para reafirmar que ao atuar em prol da educação alagoana, Diegues Júnior teve sua expertise[7] reconhecida, tendo-a mobilizado em diversas situações, conforme já mencionado.

Ressalta-se também no diálogo com os documentos já citados, a centralidade da atuação de Diegues Júnior em função da formação dos professores e na defesa do método intuitivo, destacadas em enunciações, que ao tempo que apontam para sua expertise, também constituíram indícios desses ecos ou efeitos de suas proposições em um movimento de circularidade de saberes entre os professores. As divulgações feitas por professores na Revista de Ensino, a exemplo da dissertação apresentada pela professora Laura Habenícia Pereira Diegues e a comunicação apresentada pela professora Eulália Eloysa de Castro Bahia em sessões do Pedagogium, apontam os ecos da modernidade do ensino e do método intuitivo defendido por Diegues. Nessa direção, corrobora-se Dias et. al. (2021, p. 16) ao afirmar que,

 

[...] a escrita dos docentes de primeiras letras na Revista de Ensino fez mais facilmente divulgar as determinações da Diretoria da Instrução Pública nos anos iniciais da República, na pessoa do bacharel e professor de Geografia Manoel Balthazar Diegues Júnior, cujas orientações tinha centralidade no ensino intuitivo nas escolas primárias alagoanas

 

Na Revista de Ensino, localizou-se também depoimentos de professores, referendando as instruções e reformas em pauta, a exemplo da declaração feita pelo professor Enéas de Araújo da localidade de Sant’Anna do Ipanema[8].

De maneira efetiva, Diegues Júnior contribuiu para a discussão de temas considerados urgentes ao debate educacional, incluindo-se a formação do professor, a organização escolar e modernização do ensino. Para tanto, propôs as Conferências Pedagógicas, desde o ano de 1886, além de outros dispositivos que tiveram rebatimentos vários, a exemplo da “[...] fundação do Instituto dos Professores Primários (1887) e a criação do Pedagogium Alagoano (1891), do qual sairia no mesmo ano a Revista do Ensino.

Considerando que partiu de Diegues a proposta de Criação do Pedagogium Alagoano e que, igualmente, Craveiro Costa (1927) atribuiu a esse educador a iniciativa da moderna forma de organização do grupo escolar em Alagoas, reafirma-se com o citado autor o “[...] espírito pedagógico avançado de Diegues Júnior”. O registro do reconhecimento feito por Craveiro Costa acerca dessa última inovação, referida como “[...] obra que veio remodelar o ensino primário [...]” mereceu destaque na Revista de Ensino de Alagoas.

 

A Diegues Júnior, o grande educador alagoano, deve Alagoas a fundação do seu primeiro grupo escolar. É o mais antigo do Estado. Foi primeiramente uma organisação irregular, em casa imprópria na qual Diegues Júnior alojou todas as escolas do seu districto, dando a forma mais de escola reunida que de grupo escolar. A organisação foi se fazendo quase a revelia official. Mas a semente ficou plantada. O governador Baptista Accioly foi ao encontro daquella tenacidade victoriosa, construiu o bello edificio da Pajussara (REVISTA DE ENSINO, 1927, p. 74).

 

Com nome gravado no frontispício do suntuoso prédio escolar, localizado a Rua Epaminondas Gracindo, no bairro da Pajuçara em Maceió/AL, onde funciona atualmente a Primeira Gerência Regional de Educação (GERE), encontra-se o registro do nome desse educador estatuído em importante patrimônio histórico-educativo de Alagoas, a saber “Escola Diegues Júnior”.

Adepto da modernidade do ensino, Diegues fez circular na Revista de Ensino, informações importantes acerca das providências que estavam sendo tomadas para efetivação do método intuitivo e aplicação prática das lições de coisas. Nessa direção orientou os professores por meio de instruções divulgadas no citado periódico acerca do desenvolvimento do programa de ensino, informando estar nas bases dessas orientações o livro Lições de Coisas de Calkins, traduzido por Rui Barbosa.

Assim, Diegues Júnior não somente propôs ou acompanhou o movimento para modernização da instrução, como também declarou ser conhecedor do assunto, ao registrar no Relatório que produziu como Diretor da Instrução Pública:

 

[...] colhendo o que de melhor me tinha ensinado a leitura e a experiencia de longos annos de magistério em lucta pelo triumpho da lei nova do ensino, nas instrucções que espedi estabeleci os processos que podiam levar ao desejado resultado e escolhi como e escolho como livro para orientação as Lecções de Cousas, de Calkins, traduzidas pelo Dr Ruy Barbosa. Hoje me occupo de redigir minuciosas lecções sobre os processos estabelecidos, auxiliando a comprehensão d’aquele livro” (DIEGUES JÚNIOR, 1892, p. 10).

 

Acerca desse último ponto, esclareceu ainda que tal procedimento, além de constituir uma prática comum entre inspetores e professores em outros países, constituiria “[...] meios de aperfeiçoarem-se uns aos outros, publicando suas descobertas e resultados” (Ibidem).

Ao discorrer em seu Relatório (1892) acerca do Pedagogium e considerando a relevância dos materiais no âmbito do método intuitivo, Diegues Júnior também mencionou sobre a aquisição de materiais técnicos, disponibilizados no Museu Pedagógico (órgão do Pedagogium), a exemplo do Aritmômetro de Arens - recurso utilizado para o ensino do sistema de numeração decimal, das operações da aritmética e a exploração do sistema métrico decimal -, o aparelho métrico de Level, também utilizado para o estudo do sistema métrico, bem como cartas geográficas. Desse modo, Diegues reafirma sua adesão a voga do ensino intuitivo no último quartel do século XIX, notadamente pelo incentivo à utilização de materiais concretos no ensino.

Era incumbência do diretor da instrução pública expedir instruções, sobretudo acerca da aplicação dos métodos e processos nas escolas, conforme previsto no Artigo 5º do Decreto 89/1891. Assim, em cumprimento a tal incumbência, Diegues Júnior expediu várias, dentre as quais destaca-se aqui às relativas ao desenvolvimento da matéria Arithmetica elementar e systema métrico decimal, referida no desenvolvimento do plano como Contabilidade para a 1ª 2ª e 3ª Classes:

 

1ª Classe. O professor faz conhecer aos alunos a idea dos números, por meio do contador mechanico de objectos; ensina-os a contar mentalmente, e os algarismos que representam os números, fazendo somma e subtracções de 1, 2 e 3, etc.; ensina-os a formar as unidades.

2ª Classe. Ensina as taboadas das 4 operações e simultaneamente as operações simples, as diferentes ordens de unidades e seu valor, o modo de ler e escrever os números, da formação das fracções. Começa o systema métrico e monetário. Dá problemas accommodados ao adiantamento. 3ª Classe. Aprendem as regras da arithmética pratica até regra de três e suas dependências. Exercitam-se no systema métrico e monetário e suas operações e fazem problemas. (REVISTA DO ENSINO, 1891, p. 9)

 

Destaca-se também instruções mais pontuais, a exemplo das que indicavam até as páginas iniciais e finais, cujos exercícios deveriam ser realizados, segundo ou seguindo-se o “programma de Calkins”, traduzido por Rui Barbosa. Registram-se a título de ilustração algumas das instruções destinadas aos professores pelo Diretor da Instrução Pública, publicadas na Revista do Ensino (1891) com enfoque para o ensino de Arithmetica elementar e systema métrico decimal, concordando que o nível de detalhamento explicitado nas instruções constitui um indicativo de que Diegues Júnior, além de ser um conhecedor do livro de Calkins, tinha uma preocupação tanto com a orientação quanto com o controle em relação ao uso das lições de coisas na prática dos professores, em Alagoas. Destacou-se as instruções de número 10 e 11, relativas às lições de Matemática, sob o aporte do livro Lições de Coisas, já mencionado.

 

[...] 10. Para o ensino de contabilidade observem-se os exercícios de pag. 237 a 328. [das Lições para desenvolver as ideas elementares de número até as Lições para desenvolver as ideas de partes eguaes, ou fracções].

11. Para o ensino do systema métrico observem-se os exercícios de pag. 334 a 341 [Lições para desenvolver as ideas de comprimento e sua medida], de pag. 348 a 352 [das Lições para desenvolver a idea de tamanho de medidas normaes, incluindo comprimento e capacidade], de pag. 358 a 361 [Lições para desenvolver as ideas de distância e sua medição e a medida de capacidade]” (REVISTA DO ENSINO, 1891, p. 125).

 

Mediante o detalhamento que se observa nas instruções emitidas por Diegues Júnior no exercício da função de Diretor da Instrução Pública de Alagoas, corrobora-se Craveiro Costa (1927, p. 39) ao mencioná-lo como “[...] senhor de todos os seus segredos de Pedagogia, cuja evolução acompanhava solicitamente, adaptando-se a todas as inovações da velha arte de ensinar” em um possível reconhecimento da expertise desse educador. Conclui-se esse verbete, reafirmando a relevância da atuação do intelectual e expert em matéria de educação, Manoel Balthazar Pereira Diegues Júnior por sua incondicional vinculação e contribuição à modernização da educação em Alagoas.

Diegues Júnior atuou na condição/posição de um expert no contexto de renovação da educação primária alagoana, propondo e realizando mudanças e/ou inovações no âmbito da matéria pedagógica, o que incluiu a proposição em prol do ensino intuitivo e das lições de coisas como métodos apropriados a marcha da modernização da educação de outros países e por que não do estado de Alagoas. Seu reconhecido protagonismo, possibilitou que fosse referido como um homem de ação em prol do desenvolvimento da instrução; atento aos problemas, mas também as possibilidades que se apresentavam em cada época, uma vez que atuou desde o último quartel do século XIX até os anos de 1920 (VILAR, 2021).

Por fim, concordando com Silva Neto e Costa (2020, p. 9) ao destacarem que “[...] mais do que classificar pessoas como intelectuais ou experts, o importante é identificar quais saberes produziram e fizeram circular”, foi esse o propósito pelo qual se pautou a construção e comunicação desse verbete, que visou dar a conhecer o nome e os (e)feitos de atuação de um educador expert, ainda pouco conhecido.

 

Referências

 

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DIEGUES JÚNIOR, Manoel Balthazar Pereira. Consolidação das Leis da Instrucção Pública. Maceió/AL, 1889. Fonte: Arquivo Público de Alagoas.

FONSECA, Clodoaldo da. Mensagem enviada ao Congresso do Estado em 15 de abril de 1913 pelo coronel Clodoaldo da Fonseca Governador do Estado. Maceió: Litografia Trigueiros, 1913. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=721263&pasta=ano%20191&pesq=Clodoaldo&pagfis=489. Acesso em: 10, ago. 2021.

MILTON, Aristides Augusto. Declaração do presidente da Província. In: DIEGUES JÚNIOR, Manoel Balthazar Pereira. Consolidação das Leis da Instrucção Pública. Maceió/AL, 1889. Arquivo Público de Alagoas.

Notas

 

[1] Optou-se por grafar o nome desse intelectual com destaque a diferenciação das letras “o” para o prenome, assim como manutenção da escrita do segundo nome como traço de diferenciação, uma vez que segundo Vasconcelos Filho (2012, p. 17) tratar-se-ia de uma singular homenagem a um padrinho de Diegues e, por conseguinte a grafia com “z”, considerando-se a diferenciação constante na publicação ABC das Alagoas (BARROS, 2015, p. 631) e as indicações de Vasconcelos Filho (2012) ao apresentar um breve registro acerca da árvore genealógica de Manuel Diegues Júnior (o filho), destacando ser o único dos “Manoeis” a grafar seu prenome com “u”.

[2] João Craveiro Costa (1874-1934) escreveu a monografia Instrução Pública e Instituições Culturais de Alagoas por solicitação do Ministério da Educação e Saúde Pública, publicada pela Imprensa Oficial em 1931, obra considerada a primeira monografia sobre a educação escolar em Alagoas. Atuou em prol da modernização da educação alagoana nos anos de 1920 a 1930, tendo ocupado as funções de Diretor de Grupo Escolar, inicialmente do Diegues Júnior e, posteriormente do Grupo Escolar D. Pedro II. Craveiro Costa também publicou vários artigos voltados para a educação na Revista de Ensino de Alagoas (1927-1931).

[3] O referido periódico, órgão do Pedagogium Alagoano, circulou nos anos de 1891 e 1892.

[4] A referência utilizada por Araújo (1886) para produção da sua obra foi o O Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt, traduzido para a Língua Portuguesa em 1869.

[5] A referida obra pode ser consultada no Arquivo Público de Alagoas. Conforme consta no catálogo disponibilizado pela Instituição, a obra integra o referente a Legislação e Leis, estando a citada obra identificada sob o número 1049 (http://www.arquivopublico.al.gov.br/catalogos).

[6] São elas: a) sentimento de pertencimento ao estrato social [...]; b) engajamento político propiciado pelo sentimento de missão ou de dever social; c) elaboração e veiculação do discurso que estabelece a relação entre educação e modernidade; d) assunção da centralidade do Estado como agente político para efetivação do projeto moderno de reforma social (VIEIRA, 2011, p. 29).

[7] Para este termo, adota-se a definição proposta por Morais (2017, p. 61) ao mencioná-la como “[...] reconhecimento da competência daquele que detém os saberes necessários para realizar tarefas que lhes são designadas”.

[8] Assim declarou o citado professor: “Procurando observar as instrucções que deram nova organização ao ensino primário do estado, eu e minha mulher vamos obtendo o mais favorável resultado em nossas escolas e estamos certos que despresados os methodos outr’ora seguidos, a infância muito e muito lucrará, uma vez que se torna agora o ensino a principal fonte de engrandecimento para a mocidade”. (REVISTA DO ENSINO, 1891, p. 89-90).

 

Edna Telma Fonseca e Silva Vilar