ANNA FRANCHI

ANNA FRANCHI

ANNA FRANCHI (1930 - ????)

 

Anna Franchi nasceu no dia 26 de abril de 1930, na cidade de Jundiaí – SP. Tendo apenas seus estudos primários, lecionou por quatro anos em uma escola primária da zona rural, na região de Monte Serrat – SP, e por mais dois anos na cidade. Após essa experiência, iniciou seus estudos no ensino secundário, no Instituto de Educação de Jundiaí. Após seus estudos no ensino secundário, começou a estudar matemática, em 1958, na Universidade de São Paulo (USP). Teve seus estudos na USP financiados pelo estado de São Paulo, em regime de comissionamento (FRANCHI, 1988, informação verbal).

Mantendo nossa atenção nos anos 1960, temos a promulgação da Lei nº 4.024/61, que estabelecia as diretrizes e bases para a educação nacional. No ensino de matemática, se iniciava um processo de grandes mudanças, seguindo algumas transformações que já ocorriam no cenário internacional, emergindo o que ficou conhecido como Movimento da Matemática Moderna (MMM). A matemática presente no ensino e na formação foram alvos de muitas transformações. “De pronto, colocou-se o problema tanto de reestruturar a matemática para o ensino, como fornecer aos professores algo que hoje chamaríamos de uma formação continuada.” (PARDIM GOUVEIA, 2020, p. 239). No final da década de 1960, o ensino dos 7 aos 14 anos torna-se obrigatório, tendo em 1971 com a publicação da Lei n.º 5.692/71 a unificação do ensino em 1.º grau – ensino de oito anos.

Anna Franchi é conhecida, genericamente, pelo trabalho desenvolvido no Experimental da Lapa[1], iniciando seu trabalho nesta instituição na década de 1960, lá permanecendo com algumas interrupções, até 1980. Na instituição, “[...] Exerceu as funções de professora e orientadora da área de Matemática, participando de pesquisas em avaliação e currículo” (SILVA, 2006, p. 54).

Partindo dessa premissa, alguns pontos tornam-se relevantes: o experimental da Lapa; e o conjunto de atividades desenvolvidas por meio do universo Experimental da Lapa. É ainda importante considerar a relação dos projetos realizados em suas diversas (re)configurações no campo matemático.

De acordo com Pardim Gouveia (2020), o Experimental da Lapa foi constituído como parte do projeto piloto para aperfeiçoamento do ensino do Estado de São Paulo, tendo em vista a educação primária e pré-primária. A partir da década de 1970 essa instituição passa a ser uma escola de oito anos. A estrutura docente era formada por efetivos e estáveis, os quais eram “[...] admitidos para aulas excedentes ou recrutados entre efetivos e estáveis da rede [...] mediante proposta do Diretor de Estudos Pedagógicos” (SÃO PAULO, 1970, s/p).

O principiar do trabalho de Anna Franchi, no Experimental da Lapa, se deu após a vivência de um treinamento para professores vocacionais, o qual, segundo ela, proporcionou um melhor caminhar na sala de aula.

 

[...] eu conseguia muito êxito com alguns (alunos) e não conseguia com as crianças mais fracas, e não me questionava muito a esse respeito. [...] por isso que eu valorizo o trabalho de treinamento do professor que aborda aspectos mais amplos, como aconteceu neste treinamento vocacional. (FRANCHI, 1988, informação verbal).

 

Com sua inserção no Experimental da Lapa, Anna Franchi, teve oportunidade de participar de palestras a respeito da matemática moderna, gerando assim um encanto pelo assunto, de forma que ela acabou buscando mais orientações por meio do Grupo de Estudos do Ensino de Matemática (GEEM), passando a realizar trabalhos junto com o grupo. Permanecendo seu foco no ensino primário.

A passagem de Anna Franchi, no Experimental da Lapa, é apenas uma das dimensões cobertas por seus projetos. De acordo com Silva (2006, p. 54), entre 1964 e 1966, Anna Franchi, “[...] após seleção por concurso, integrou a equipe de Matemática no Serviço de Formação e Educação pela Rádio e Televisão SEFORT, responsável pela produção e transmissão de telecurso para o 1.º grau”. Em geral, ganham destaque a educação como um fator para as transformações que estavam acontecendo, ampliando-se as suas atividades por meio de outros formatos, implicando na constituição de um saber acerca da matemática.

Entre os projetos executados por Anna Franchi, constituídos por trabalhos de membros do GEEM destaca-se o livro Introdução da Matemática Moderna na Escola Primária, escrito por ela, Manhúcia Perelberg Liberman e Lucília Bechara Sanchez, datado de 1963 (FRANÇA, 2012; FRANÇA; DUARTE, 2017). Pode-se ainda mencionar, o livro Curso Moderno de Matemática para a Escola Elementar, escrito pelas mesmas autoras, tendo o volume 1 publicado em 1967 e o volume 2 em 1968, ambos pela Companhia Editora Nacional (BORGES; FERNANDES, 2016; SILVA, 2009).

Na década de 1970, Anna Franchi, Manhúcia Perelberg Liberman e Lucília Bechara Sanchez, compuseram a equipe do GRUEMA[2]. Segundo Villela (2009, p. 171-172), Anna Franchi atuou apenas na elaboração dos livros correspondentes à 1.ª e à 2.ª série do 1.º grau.

 

Anna Franchi participou apenas da elaboração dos volumes iniciais. [...] nos depoimentos das entrevistadas, colhidos separadamente e em datas diferentes, [...] para Manhúcia estes dois volumes seriam os da 1.ª série, apesar de terem concordado em inclui-la como autora no da 2.ª série. Para Lucília, Anna Franchi participara das discussões também do livro da 2.ª série, sendo que “depois a Anna saiu para trabalhar com a Antonieta num outro livro e ficamos, a Manhúcia e eu no primário...”.

 

Outro projeto coordenado por Anna Franchi, referente ao Experimental da Lapa, diz respeito ao currículo de matemática da instituição. Segundo Pardim Gouveia (2020), o relatório do Grupo Escolar “Dr. Edmundo Carvalho” referente ao ano de 1967, publicado em 1968, justificava o campo de matemática em tempos de regime militar. A composição elaborada por Anna Franchi, desempenhava um papel mais geral de referência do ensino de matemática na instituição. Tratava-se de uma organização importante para as ações que estavam acontecendo em tempos de regime militar, e o Experimental constituía um laboratório para os ensinos, mais especificamente, para o ensino de matemática. “Ao indicar uma estrutura a ser ensinada, fixava objetos de trabalho ao professor, os saberes a ensinar, sobre os quais estavam articuladas as ferramentas de trabalho do professor os saberes para ensinar.” (PARDIM GOUVEIA, 2020, p. 251).

O currículo de matemática do Experimental possuía uma espécie de estrutura proposta pelo Movimento da Matemática Moderna, que exigia um conhecimento bem profícuo do campo disciplinar. Por outro lado, ele se ateve a dominação de determinados conceitos, mediante uma espiral de evolução do conteúdo.

 

Um elemento de valor neste período, está no amplo movimento dos saberes, os quais se faziam presentes nas considerações dadas pela professora Anna Franchi ao encabeçar uma construção significativa em seu currículo, utilizando-se das nuances matemáticas para a construção e formalização de um currículo em que a elaboração de ideias parte do concreto chegando ao abstrato, porém não excluindo os processos lógico-matemáticos presentes na caminhada do aluno (PARDIM GOUVEIA, 2020, p. 251).

 

A referência aos saberes remete a algo estruturante, em que, Anna Franchi indica ações no âmbito do Experimental da Lapa, apontando mudanças relevantes para o ensino de matemática. “[...] Por mais elaboradas que fossem as ligações realizadas no currículo pela professora Anna Franchi, as ideias do MMM necessitavam ser replicadas, estudadas e compreendidas pelos professores...” (PARDIM GOUVEIA, 2020, p. 252).

Apesar disso, há uma linha de ação que se consolida no ano de 1971. Anna Franchi elabora o Caderno VII (https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/196248), que traz o planejamento de ensino da área de matemática para as primeiras séries do curso fundamental – 1.º grau. Documento este pertencente a Secretaria de Estado dos Negócios da Educação do Estado de São Paulo, sob a chancela da Coordenadoria do Ensino Básico e Normal. Segundo registro no Caderno VII, este material foi elaborado com a colaboração de professores do Experimental da Lapa, sob supervisão de Anna Franchi, “Constituindo uma fase do trabalho de pesquisa em ação do projeto elaborado para 1970” (SÃO PAULO, 1971, p. 3). A estrutura apresentada no documento – Parte A: objetivos educacionais da área; Parte B: objetivos instrucionais da área para as quatro séries do curso fundamental –, representa a organização escolar mediante o trabalho pedagógico e expressa um projeto posto em prática no cotidiano escolar. A matemática escolar requisitada deveria ir dos elementos mais simples a um rigor matemático, revelando, assim, uma nova matemática, ou seja, um processo de fazer matemática que oportunizasse uma construção coletiva. De acordo com Pardim Gouveia (2021), Anna Franchi evidencia um saber objetivado, para ensinar matemática, contribuindo com a formação do professor. O formato assumido, leva o professor a associar a matemática pura com os processos relacionais do dia a dia.

No que se relaciona a Anna Franchi, podemos tomar que, a atuação da mesma – no Experimental da Lapa –, por meio de sua expertise, lhe concede o status de expert, tendo em vista que ela ocupa o espaço de especialista, reconhecida por seus pares, com experiência em sua área e chamada a ocupar cargos a fim de estudar uma situação.

 

Referências

 

BORGES, Rosimeire Aparecida Soares; FERNANDES, Juliana Chiarini Balbino. A Matemática Moderna no Ensino Primário na Década de 1960: um olhar sobre dois manuais didáticos. In: ENCONTRO NACIONAL DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA - ENEM, 12., 2016, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: [s. n.], 2016. p. 1-15. Disponível em: http://www.sbembrasil.org.br/enem2016/anais/pdf/8174_3986_ID.pdf. Acesso em: 05 mar. 2020.

FRANÇA, Denise Medina de Almeida. Do primário ao primeiro grau: as transformações da Matemática nas orientações das Secretarias de Educação de São Paulo (1961-1979). 2012. 294 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

FRANÇA, Denise Medina; DUARTE, Aparecida Rodrigues. A implementação do movimento da matemática moderna nos anos iniciais no estado de São Paulo. Em Teia | Revista de Educação Matemática e Tecnológica Iberoamericana, [s. l.], v. 8, n. 3, p.1-15, 10 nov. 2017. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/emteia/article/view/23315. Acesso em: 05 mar. 2020.

PARDIM GOUVEIA, Relicler. Elementos Históricos do Saber Profissional do Professor de Matemática: um estudo do ‘Caderno VII’ da professora Anna Franchi (São Paulo, 1971). Remat-Revista de Educação Matemática, São Paulo, v. 18, p. 1-16–e021002, 2021. Disponível em: https://www.revistasbemsp.com.br/REMat-SP/article/view/448/233. Acesso em: 01 fev. 2021.

PARDIM GOUVEIA, Relicler. O Experimental da Lapa: um laboratório de currículo para a matemática moderna. Histemat, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 238-254, maio 2020. Disponível em: http://histemat.com.br/index.php/HISTEMAT/article/view/310. Acesso em: 01 fev. 2021.

SÃO PAULO. Decreto-Lei n.º 52.488, de 14 de julho de 1970. Cria o Grupo Escolar - Ginásio Experimental "Dr. Edmundo de Carvalho", da Capital. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/decreto/1970/decreto-52488-14.07.1970.html. Acesso em: 01 jan. 2020.

SILVA, Heloisa da. Centro de educação matemática (CEM): fragmentos de identidade. 2006. 448 f. Tese (Doutorado em Educação Matemática) - Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2006. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/102135. Acesso em: 12 jul. 2020.

SILVA, Joselene Rodrigues da. Matemática no Ensino Primário: duas paisagens, uma história, muitas interrogações. 2009. 158 f. Dissertação (Mestrado Educação Matemática) -Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2009. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/91133/silva_jr_me_rcla.pdf;jsessionid=03D4A503901A512AA374A1D7584B48BB?sequence=1. Acesso em: 05 mar. 2020

VILLELA, Lucia Maria Aversa. GRUEMA: uma contribuição para a história da educação matemática no Brasil. 2009. 230 f. Tese (Doutorado em Educação Matemática) - Universidade Bandeirante de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/161992. Acesso em: 20 fev. 2020.

VILLELA, Lucia Maria Aversa. Revivendo o GRUEMA: da memória das autoras à produção de uma história. Bolema, Rio Claro, SP, v. 23, n. 35B, p. 387-403, abr. 2010. Disponível em: http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/bolema/issue/view/820. Acesso em: 31 maio 2020.

Fontes consultadas

FRANCHI, Anna. [Entrevista concedida a] Elizabete Zardo Búrigo. São Paulo, 24 jun. 1988, Arquivo mp3, lado A (46 min). Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/201101. Acesso em: 03 jan. 2020.

FRANCHI, Anna; LIBERMAN, Manhucia Perelberg. Introdução da Matemática Moderna na Escola Primária. São Paulo: GEEM, 1966. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/159590. Acesso em: 06 fev. 2021.

FRANCHI, Anna. Grupo Escolar Experimental “Doutor Edmundo Carvalho”: Desenvolvimento da área de matemática no G. E. Exp. “Doutor Edmundo Carvalho”. Setor Pedagógico, 1968. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/196258. Acesso em: 06 fev. 2021.

LIBERMAN, Manhucia Perelberg; FRANCHI, Anna; BECHARA, Lucilia. Curso Moderno de Matemática para a Escola Elementar. v. 1. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/208914. Acesso em: 06 fev. 2021.

LIBERMAN, Manhucia Perelberg; FRANCHI, Anna; BECHARA, Lucilia. Curso Moderno de Matemática para a Escola Elementar. v. 2. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/159278. Acesso em: 06 fev. 2021.

LIBERMAN, Manhucia Perelberg; SANCHEZ, Lucilia Bechara; FRANCHI, Anna. (GRUEMA). Curso moderno de matemática para o ensino de 1.º grau. 1.ª série. Ilustrações de Luiz Noviani e Gilberto Marchi Ferreira; Capa de Maria Teresa Ayoub Jorge e Regina B. Tracanella. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974a. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/208789. Acesso em: 06 fev. 2021.

LIBERMAN, Manhucia Perelberg; SANCHEZ, Lucilia Bechara; FRANCHI, Anna. (GRUEMA). Curso moderno de matemática para o ensino de 1.º grau. 2.ª série. Capa e ilustrações de Maria Teresa Ayoub Jorge e Regina B. Tracanella. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974b. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/208798. Acesso em: 06 fev. 2021.

SÃO PAULO. Caderno VII. Secretaria de Estado dos Negócios da Educação. Coordenação do Ensino Básico e Normal. Divisão de Assistência Pedagógica, 1971. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/196248. Acesso em: 03 jan. 2020.

 

Notas

[1] O Grupo Escolar – Ginásio Experimental Doutor Edmundo Carvalho, conhecido como Experimental da Lapa, era uma instituição paulista, referência no ensino experimental durante as décadas de 1960 e 1970 (PARDIM GOUVEIA, 2021).

[2] GRUEMA - Grupo de Ensino de Matemática Atualizada, foi o nome escolhido pelas autoras da coleção Curso Moderno de Matemática para o Ensino de 1.º grau. Segundo Villela (2010, p. 398), a preferência pelo nome se deu porque na verdade nenhuma das autoras queria seu nome divulgado, se assemelhando ao Grupo Bourbaki que já existia, mas ninguém sabia quem eram as pessoas.

 

Relicler Pardim Gouveia