ARTHUR RIBEIRO MARINHO

ARTHUR RIBEIRO MARINHO

ARTHUR RIBEIRO MARINHO

 

Arthur Marinho[1] era filho de Alfredo Marinho e Ana Marinho (MELLO, 2004). Embora não tenhamos total certeza, as fontes consultadas indicam que ele teve mais seis irmãos (Francy Marinho, Aldenora Marinho, Adelina Marinho Rodrigues, Elzita Marinho Palácio, Aluísio Marinho e Djalma Marinho). Entre os anos de 1922 e 1926, Arthur Marinho fora estudar na Escola Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro. De acordo com o site Artes Plásticas Maranhense[2], esse aprimoramento artístico na então cidade do Rio de Janeiro só foi possível porque em meados do século XIX, com o desenvolvimento agroindustrial de países desenvolvidos, como os Estados Unidos, o comércio e a produção agrícola maranhense entraram em declínio. Como o dinheiro gerado por tais atividades passou a ficar mais escasso, os artistas (filhos de pais influentes) foram buscar uma formação na cidade do Rio de Janeiro e na Europa.

Esse aprimoramento na capital Federal parece ter sido uma práxis recorrente na vida de muitos outros artistas brasileiros amantes da Arte. A Escola Nacional de Belas-Artes “foi o principal agente na elaboração de uma imagem que se constituiu o universo simbólico ambicionado pela sociedade brasileira” (ZILIO, 1985, p. 274), onde se exerceu durante muito tempo “o papel de núcleo formador dos principais artistas brasileiros” (ZILIO, 1985, p. 274). Por ser considerado uma das promessas mais talentosas no campo da Arte, recebeu o amparo dos poderes públicos, cabendo ao Estado garantir-lhe recursos que provessem sua estada naquela Capital.

Antes, porém, de seguir para o Rio de Janeiro, Arthur Marinho teve como mestre o professor e pintor José de Paula Barros. Barros abriu uma Escola de Desenho e Pintura no Maranhão “para oferecer ao público, [...] a prova material da sua competência e dedicação ao ensino da arte [...]” (PACOTILHA, 16/8/1915, p. 1 apud MELLO, 2004, p. 225). Dentre seus discípulos estava Arthur Marinho.

De acordo com um extrato do jornal Diário Oficial do Estado (1924),

 

Marinho, que daqui partiu há uns dois anos, levado pela força de vontade e pela grande vocação à pintura, de logo se revelou um talento, copiando ao natural, com o lápis, rebrilhando com o pincel e chamando a atenção dos mestres e dos condiscípulos. Os trabalhos, que nos chegam desse jovem artista, são todos dignos de atenção, nem só pela fidelidade das cópias ou paisagens, como pelo colorido, cujos tons nos fazem lembrar de um Rubens ou de um Sanzio (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO, 22/11/1924, p. 5 apud MELLO, 2004, p. 352).

 

Neste seu apreço pelo desenho do natural, Arthur Marinho utilizava, preferencialmente, técnicas de desenho com lápis pastel e crayon. Seus trabalhos passaram a fazer parte do ciclo de pintores maranhenses, ocupando lugar central em alguns salões de pintura da época. Tais feitos fizeram com que, aos poucos, o moço maranhense fosse ampliando seu círculo de sociabilidade e de simpatias no meio artístico carioca. Portanto, nota-se que suas experiências e trabalhos realizados lhe proporcionaram contato com elementos imprescindíveis à sua formação profissional, bem como lhe possibilitaram desenvolver sua expertise no campo artístico e pedagógico, como veremos a seguir, já que suas atitudes tiveram implicações na organização e sistematização do ensino de Desenho na formação de normalistas maranhenses.

Suas ações como pintor em formação e expositor de trabalhos em pastel e a crayonnos parecem indicar uma construção científico-teórica. Ademais, sua grande habilidade em desenhar pode ter contribuído para que, juntamente com o pintor Newton Pavão, tivesse sido convidado para julgar alguns trabalhos durante a exposição de desenhos realizada na residência do conterrâneo José Mercedes Gomes. A exposição contava com desenhos a crayon, sanguínea, sépia e algumas pinturas a óleo, executados pelos alunos de Gomes. Na ocasião, para o julgamento dos desenhos, Marinho utilizou-se da experiência dos concursos de fim de ano da Escola Nacional de Belas-Artes. Os redatores do jornal Pacotilha(26/3/1925 apud MELLO, 2004, p. 367) afirmam que, segundo Marinho, havia vantagens do novo método de ensino do Desenho, pois facilitava “a compreensão do estudo da figura humana, com suas proporções, expressões e seus planejamentos de sombra”. Marinho, assim, parece estar fazendo jus ao financiamento do Estado, haja vista o lugar de prestígio que ocupava no cenário das artes plásticas maranhenses naquele momento. Sua trajetória, marcada pelos estudos na Escola Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro, ia fazendo dele um ator social importante para a época. Em outubro de 1925, o jornal Pacotilhanoticiava que ele abriria um curso de pintura que obedeceria aos métodos estudados na escola superior de artes. De modo parecido, Marinho também manteria um curso noturno de modelo vivo (estudo do nu) para alunos amadores que tivessem conhecimento do desenho ao natural, inclusive atenderia chamados de interessados para aulas particulares em suas casas (PACOTILHA, 3/10/1925, p. 1 apud MELLO, 2004).

Diante do exposto, é possível observar que a expertise de Arthur Marinho era fruto de seu aprimoramento na Escola de Belas-Artes, de seu engajamento nas questões artísticas locais e de sua rede de sociabilidade bem estabelecida. Em outras palavras, a sua expertise emanava das relações, experiências e atitudes tomadas no âmbito de sua trajetória profissional. Todavia, a constituição dessa sua expertise se conclui a partir da sua legitimação como pintor/artista perante a sociedade ludovicense (a exemplo da convocação para ilustrar quadros de personalidades admiráveis como Gonçalves Dias e Dr. Washington Luiz etc.) e da sua importante participação na Escola de Belas-Artes do Maranhão (fundada em 1922 e extinta em 1935) como professor de Desenho e Pintura. Essa Escola objetivou criar uma nova e importante geração de artistas, tais como pintores, alunos de teatro, músicos, arquitetos etc. (O ESTADO DO MARANHÃO, 2017).

Esse alto alcance das manifestações artísticas por Marinho, que se diga de passagem foi celebrado e divulgado pela imprensa local, acabou tornando-o conhecido e admirado pelo público maranhense. Essa sua exuberância artística passou a ser vista como um gesto raro de um distinto pintor que, mesmo de origem humilde, acabou vencendo, “ajudado pelo seu Governo, os primeiros degraus de sua carreira artística” (A HORA, 14/9/1926, p. 1 apud MELLO, 2004, p. 386). Mediante “confecção e apurado gosto artístico” (A HORA, 8/9/1926, p. 3 apud MELLO, 2004, p. 386) chegou a montar um estúdio/ateliê que empregava trabalhos em retratos a óleo, pastel, crayon ou fusain, “um verdadeiro ambiente de arte” (PACOTILHA, 3/1/1927, p. 3 apud MELLO, 2004, p. 391) localizado na Rua Magalhães de Almeida, 8 – Sobrado. Como forma de gratidão ao Estado, pela pensão ofertada durante seus estudos, Marinho também ofereceu gratuitamente seu serviço para a restauração dos quadros da Pinacoteca do Palácio e dos quadros da Coleção Arthur Azevedo (A HORA, 14/9/1926; PACOTILHA, 20/9/1926 apud MELLO, 2004).

A partir de toda essa trajetória percebemos o quanto Arthur Marinho atuou no cenário artístico do Maranhão. Além de jovem pintor, ex-aluno da Escola Nacional de Belas-Artes e da Escola de Belas-Artes do Maranhão, Marinho também se dedicou à profissão docente, tendo atuado como professor do Liceu Maranhense. Ao que tudo indica sua carreira nessa Instituição iniciou-se no ano de 1926. Assim, já como membro do corpo docente do Liceu Maranhense, participou de uma exposição de desenhos escolares produzidos por alunos de escolas públicas e particulares, os quais seriam “enviados às crianças japonesas, em retribuição aos que, no ano passado, pelas mesmas foram oferecidos às crianças brasileiras” (O IMPARCIAL, 10/1/1929, p. 1 apud MELLO, 2004, p. 420). Tal exposição, contou com a participação, dentre outros, de Arthur Marinho, Letícia Holanda, Odília Pinho, Celina Nina, Amélia Carvalho, Zoé Cerveira e Evangelina Aguiar, como avaliadores dos trabalhos a serem apresentados em mostra pública. A referida exposição contou com 160 desenhos, classificados em três gêneros: cópias, trabalhos do natural e trabalhos de inventiva (O IMPARCIAL, 11/1/1929 apud MELLO, 2004). Assim, Marinho parece revelar-se como expert convocado pela oficialidade, haja vista que sua identidade como professor de Desenho se deu em função do prestígio adquirido ao longo do tempo, bem como pelo exercício de suas variadas funções junto à Arte e à Educação maranhense.

O contexto político, social, cultural e educacional, no qual Marinho estava inserido, se comportava da forma descrita a seguir. Para Castro (2017), a transição do período imperial para o republicano não provocou mudanças significativas no contexto sociocultural da época. A questão do ensino era marcada pela precariedade, elitização e altos índices de analfabetismo. Com o advento da Primeira República (1889-1930), o Estado maranhense preocupou-se em criar leis que garantissem a expansão do ensino. Ainda segundo Castro (2017), as ações políticas, neste contexto, se voltaram para a formação de um novo cidadão, de modo a instruí-lo para uma nova sociedade. Ao adentrar na República, o Maranhão via de perto a “morte” da lavoura de algodão, da cana-de-açúcar e do comércio e em substituição passava a investir em um setor totalmente novo para um estado agroexportador: a indústria (LIMA, 1981). Com esse pensamento, os grupos políticos dominantes começaram, em 1890, a propagar a ideia da obrigatoriedade do ensino. De acordo com Saldanha (2008), se por um lado, até o final do século XIX, no Maranhão, a estrutura escolar de sua sociedade baseava-se numa estrutura excludente, por outro lado, o processo de intelectualização da classe dominante estava fundamentado num ensino bacharelesco, enciclopédico e acadêmico, reservado para a elite e classe média, que viam na escola um meio de concretização de seus próprios interesses. Pelo que tudo indica, Arthur Marinho participava deste grupo seleto.

Inserido neste desejo de reconstrução de um país mais moderno, o Maranhão teve então a criação e instalação definitiva de uma Escola Normal na Capital, por meio da Reforma de 1890 que reorganizava o ensino público do Estado. Destinada a ambos os sexos, a oficialização da criação da primeira Escola Normal do Maranhão só aconteceu após a Proclamação da República, no governo de José Tomás Porciúncula. Foi o Decreto nº. 21, de 15 de abril de 1890, que reorganizava o ensino público do Estado que, de fato, tornou oficial a sua criação. Anexada ao Liceu, essa escola inicialmente começou a funcionar com 10 cadeiras, dentre elas estava a de Desenho. Em suma, segundo explica Saldanha (2008), “as reformas do ensino primário realizadas durante a primeira década republicana propunham um currículo bem mais exigente que aquele rudimentar que vigorava durante o período imperial” (SALDANHA, 2008, p. 141). Como se vê, o debate sobre a constituição de uma identidade nacional para a instrução primária do Estado tornou-se pauta entre os políticos e educadores locais. Tal identidade era considerada uma necessidade pública, social e política capaz de reestabelecer a ordem e o progresso da Athenas Brasileira, como era assim chamada a capital São Luís. Arthur Marinho parece assim não ter se eximido de tal responsabilidade.

Foi neste embalo que em 1920 foi realizado um Congresso Pedagógico “para apresentar teses e reflexões sobre a instrução pública maranhense, suas limitações e possibilidades” (OLIVEIRA, 2013, p. 3). Além de teses especiais sobre faculdades, escolas de pedagogia, liceus etc., os programas dos assuntos versaram em cinco sessões: Educação Física, Educação Intelectual, Educação Técnica, Educação Moral e Educação Estética. As matérias de Desenho, Aritmética e Geometria, Álgebra e Trigonometria e Trabalhos Manuais estavam inseridas no componente Educação Intelectual, ficando o relatório dessa sessão por conta do dr. António Lopes. Buscava-se nesse congresso aparar algumas arestas que dificultavam uma boa organização das escolas, dos métodos, do mobiliário, dos programas e dos vencimentos do magistério primário. Para os participantes, fazia-se necessário corrigir o ensino por meio de um apelo ao trabalho dos professores (MARANHÃO, 1920). É informado que na quarta e nona sessão, o dr. Cesário Véras marcou presença na discussão sobre o ensino do Desenho. Mais adiante tem-se a informação de que foram apresentados três estudos sobre noções elementares de Física, Desenho e Música pela senhora D. Zila Pais.

Essas ideias já sinalizavam que o ensino e a formação de professores não poderiam prescindir do auxílio do desenho como matéria/disciplina de formação profissional. Ademais, neste movimento de reconstrução educacional, a vaga pedagógica intuitiva tinha como premissa a educação dos sentidos baseada na centralidade dos objetos de ensino. Na proposição desse método, a observação, a intuição e os objetos eram os instrumentos indispensáveis para auxiliar na passagem da percepção às ideias (SOUZA, 2013). Ainda de acordo com essa autora, “os objetos adquirem tanta importância [...] porque a disseminação do mesmo coincide com o momento em que os objetos materiais são produzidos e industrializados e vistos como símbolos de civilização” (SOUZA, 2013, p. 106). Na década de 1920, época em que Arthur Marinho estudou na Escola de Belas-Artes do Rio de Janeiro e iniciou sua vida profissional como professor de Desenho no Liceu Maranhense, essas preocupações voltaram a ser enunciadas, porém com mudança de significados (VIDAL, 2000). Esta escola renovada pretendia ter como base a incorporação da população infantil. Segundo Vidal (2000), tal escola devia oferecer situações em que o aluno, a partir da visão (observação), mas também da ação (experimentação), pudesse elaborar seu próprio saber. Ou seja, nessa vaga pedagógica a criança deveria se tornar o centro do processo de aprendizagem e as atividades a base para a construção experimental e intelectual do estudante. Pelo exposto acima, tudo indica que nesse contexto há necessidade de mudanças curriculares, pedagógicas e estruturais para serem adotadas no ensino e na formação de professores. Afinal: Quais as implicações do trabalho de Arthur Marinho sobre o ensino de Desenho na Escola Normal maranhense, a partir de seu chamado para elaborar programas de ensino?

Tudo começa em 1930 com a divulgação dos Programmas das Diversas cadeiras do Curso Normal do Lyceu Maranhense para o anno de 1930 (https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/171183), publicado pela Imprensa Oficial. Na ocasião, esse programa tratou das diferentes cadeiras do Liceu. Nessa época, o curso normal de formação de professores primários havia sido incorporado ao ensino secundário e estava sob a tutela do Liceu Maranhense, com duração de 5 anos. Isso porque, em 1914, com a baixa frequência e a falta de recursos financeiros, a Escola Normal teve suas atividades encerradas e o seu curso foi transformado em curso profissionalizante no Liceu (TOURINHO, 2008). No que diz respeito ao ensino de Desenho, pouco ainda se sabe sobre os bastidores que levaram Arthur Marinho a organizar e assinar este programa de ensino. Porém, uma hipótese que levantamos é a de que possivelmente fazia parte das atribuições de alguns professores de Escolas Normais, além de ministrarem suas disciplinas, elaborarem os seus respectivos programas de ensino. Esse fato justifica em parte a escolha desse personagem. Neste sentido, o trajeto de legitimação de sua expertise foi sendo consolidado a partir da mobilização de seus feitos em trabalhos artísticos e educacionais. Para formar o(a) professor(a) primário(a), normalista, Arthur Marinho fez a opção pelo ensino dos seguintes saberes a ensinar: desenho do natural, desenho ornamental e desenho de imaginação pelo método do ensino intuitivo. Percebe-se, então, a existência de uma variedade de tipos de desenhos que dão valor à imaginação, à observação, à criatividade, à arte, à precisão e ao sentido estético (GUIMARÃES; LIMA, 2019; GUIMARÃES, 2020). Esses saberes a ensinar são entendidos por Hofstetter e Schneuwly (2017, p. 131) como os “saberes aos quais formar”, produzidos pelas disciplinas universitárias, pelos diferentes campos disciplinares. Compõem os objetos do trabalho docente. Por fim, a finalidade desse saber no Curso Normal era

 

[...] dar a precisa educação artistica a todos os que pretendem um diploma de professor normalista e uma segura noção de conhecimentos de esthesia, que são indispensaveis na vida pratica, e do conhecimento pratico-theorico (embora muito rudimentar) do desenho do natural e do desenho ornamental que poderá ser applicado á trabalhos manuaes (MARANHÃO, 1930, p. 64).

 

Pela citação anterior, o que se observa é uma aplicação da prática de pintor/desenhista em assuntos educacionais. Além de uma educação artística, para dar aula de Desenho, o professor necessitava de saberes sobre conhecimentos estéticos, de embelezamento e bom gosto sobre aquilo que desenhava ou elaborava como produto. Ademais, o conhecimento considerado prático-teórico era indispensável a esta formação e esse advinha do desenho do natural e do desenho ornamental. O desenho de imaginação e o desenho estigmográfico eram outros aliados fundamentais nesse processo. No caso do desenho ao natural, a referência principal era desenvolver saberes que educassem a vista na avaliação das grandezas e das distâncias e garantissem o equilíbrio da mão e a habilidade no traçado relativo à observação direta dos objetos (MARANHÃO, 1930). Tratava-se, portanto, de uma modalidade de desenho que deveria ser executado à mão livre, sem o uso de instrumentos de precisão. Os “ligeiros esboços baseados no methodo intuitivo” (MARANHÃO, 1930, p. 59) levam a crer que o seu ensino se desse por meio de cópias de objetos ou de modelos em gesso colocados à vista dos futuros normalistas. Tudo isso a partir do método de ensino intuitivo, marca indelével da pedagogia moderna. Tal método reza que a intuição dos sentidos é o meio fundamental de conhecimento natural.

Já o trabalho de memória/imaginação exigia dos alunos/das alunas em formação o uso da memória, um apelo para a reprodução “dos trabalhos constantes de originaes dados em aula” (MARANHÃO, 1930, p. 59), ou seja, dos objetos copiados do natural que depois de observados, imaginados e esquematizados deveriam ser desenhados a lápis no papel. O lápis e o papel recomendados para uso individual dos alunos dos 1º e 2º anos era o papel Fauchon Lepage, de tipo menos poroso, mas espesso, “afim de facilitar o manejo com o lápis e firmesa no traçado” (MARANHÃO, 1930, p. 63) e lápis Johann Faber, números 1, 2 e 3. Aqui também era o momento de apelar para a criatividade artística, um dos saberes para ensinar que via na estética um dos “saberes próprios para o exercício da profissão docente” (VALENTE; BERTINI; MORAIS, 2017, p. 228). Esses saberes para ensinar, segundo Hofstetter et al. (2017), têm por especificidade à docência. São eles que tornam ensináveis os saberes a ensinar e que juntos determinam os saberes profissionais. Cabe ainda mencionar que fica evidente, na continuidade dos anos, uma exigência quanto à marcha de ensino, a qual seguia uma lógica progressiva de aprendizagem, etapa por etapa. Outro dado importante se refere aos materiais adotados pelos futuros normalistas para as aulas de Desenho: quadro negro quadriculado, mesa, carteiras, cavaletes com bancos, armários, sendo um para guardar os “modelos figurados em gesso, como: sólidos geométricos, flôres, fructos, folhas, animaes, etc” e um suporte para os modelos figurados em gesso. Já para o uso individual dos alunos a sugestão era de papéis específicos (Fauchon Lepage, Ingres), lápis (Johann Faber), borracha (Mongol, Venus ou Ruby), lápis coloridos, estojo com tintas de aquarelas, uma pasta acondicionadora, uma régua graduada e outra comum, um esquadro de ângulo reto, um transferidor, um compasso com tira-linhas, um pincel duplo, vidro com nankinespecial, bastões de pastel, esfuminhos de camurça, pincéis, source e fusains. Ademais, por essa listagem de materiais observa-se um ensino de desenho com e sem o uso de instrumentos, um baseado no desenho do natural e atrelado ao uso dos modelos em gesso e, o outro no ensino de desenho ornamental, cuja execução permitia o uso de instrumentos de precisão. Outra marca da expertise de Marinho é a efetivação dessa proposta pelo método de ensino intuitivo, dando a essa proposta uma organicidade linear pautada em objetivos e procedimentos metodológicos.

Na continuidade do acompanhamento da trajetória do professor Arthur Marinho, vemos também que o programa de Desenho aprovado para os cursos Normal e Complementar de 1934 (https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/171182) é assinado novamente por ele, em 14 de fevereiro de 1934. Seguindo a linha do detalhamento, neste outro programa há mais modalidades de desenho, isto é, de novos saberes a ensinar. Além dos citados anteriormente, compuseram a lista o ensino de desenho à mão livre, desenho geométrico, desenho esquemático, desenho funcional, desenho de arte aplicada etc. Apesar do notório acréscimo, permaneceu a intenção de desenvolver as faculdades da observação, da avaliação das distâncias e das grandezas. De acordo com Guimarães (2020), essa permanência esteve apoiada no gosto pela precisão e ajuste do olho e da mão. O desenho de arte aplicada consistia numa espécie de aplicação do desenho na construção de figuras geométricas. Sobre o desenho decorativo, sua existência ficou mais clara nesse programa. Sua finalidade era, aplicado aos trabalhos manuais, a produção de objetos ornamentados, tais como almofadas, porta-jornais, porta-cartões etc., que pudessem servir de decoração para objetos pessoais. Entretanto, diferentemente do programa anterior, não há uma clara menção ao uso ou não uso de instrumentos de precisão, todavia o desenho geométrico ganhou mais força. O que levou Arthur Marinho a ser enfático ao dizer que o conhecimento da morfologia geométrica plana era indispensável ao curso de desenho. Desta forma, estamos diante de uma disciplina/matéria escolar constituída por saberes geométricos. O que assim se torna possível dizer que a geometria representava a base matemática para o ensino específico deste saber na Escola Normal do Maranhão. Ou seja, o campo disciplinar do desenho vem da geometria e, consequentemente, da matemática.

Em conclusão, a análise das fontes e das discussões aqui apresentadas permite afirmar que a expertisede Arthur Marinho é legitimada quando ainda inicialmente o Estado passa a custear sua estada no Rio de Janeiro para cursar Arte e, depois, quando é chamado para avaliar e propor encaminhamentos teórico-metodológicos para o ensino de Desenho na formação de normalistas maranhenses. Dizendo de outro modo, sua expertise no âmbito do ensino foi observada pelas suas atitudes e experiências exitosas enquanto pintor e desenhista no cenário profissional. A organização metodológica proposta por ele conduzia os(as) professores(as) em formação para o aperfeiçoamento das faculdades de observação e pelo sentido artístico e estético. Ademais, havia embutido nisso saberes práticos e utilitários que pudessem ser mobilizados no dia a dia de cada um(uma) deles(as). Desse modo, entendemos que a mobilização de sua expertise implicou na implementação de novas e variadas modalidades de desenho que fomentaram a constituição de novos saberes para ensinar.

 

Referências

 

CASTRO, Cesar Augusto. A legislação como fonte para a História da Instrução Primária Maranhense. Cadernos de História da Educação, v. 16, n. 1, p. 30-44, jan./abr. 2017.

HOFSTETTER, Rita; SCHNEWLY, Bernard. Saberes: um tema central para as profissões do ensino e da formação. In: HOFSTETTER, Rita; VALENTE, Wagner Rodrigues (Org.). Saberes em (trans) formação: tema central a formação de professores. São Paulo: Editora da Física, 2017. p. 113-172.

HOFSTETTER, Rita et al. “Penetrar na verdade da escola para ter elementos concretos de sua avaliação” – A irresistível institucionalização do expert em educação (século XIX e XX). In: HOFSTETTER, Rita; VALENTE, Wagner Rodrigues (Org.). Saberes em (trans) formação: tema central a formação de professores. São Paulo: Editora da Física, 2017. p. 55-112.

GUIMARÃES, Marcos Denilson; LIMA, Maria Consuelo Alves. Vestígios do ensino de Desenho na Escola Normal do Maranhão: uma leitura a partir de revisão de literatura. REVEMAT, Florianópolis (SC), v. 14, n. 2, p. 1-14, 2019.

GUIMARÃES, Marcos Denilson. Os saberes a ensinar Desenho para a escola Normal do Maranhão: um encaminhamento pelas finalidades de ensino, 1905-1934. HISTEMAT, SBHMat, v. 6, n. 2, p. 98-116, 2020.

LIMA, Lauro de Oliveira. Estórias da educação no Brasil: de Pombal a Passarinho. 3. ed. ampl. Rio de Janeiro: Brasília/Rio, 1981.

OLIVEIRA, Rosângela Silva. Fran Paxeco, Lenthe da revitalização pedagógica moderna no estado do Maranhão, organizador do 1º Congresso Pedagógico em 1920. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 7., 2013, Cuiabá, Mato Grosso. Anais [...]. Cuiabá, 2013. Disponível em: <https://gem.ufmt.br/cbhe7/COMUNICACAO-INDIVIDUAL-ATUALIZADA-24042013.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2021.

REISSE, Jacques. L’expertise scientifique et le choix des experts em question. Disponível em: <https://www.academieroyale.be/academie/documents/Lexpertisescientifiquechoixexpertsq11008.pdf>. Acesso em: 03 fev. 2020.

SALDANHA, Lilian Leda. A instrução pública maranhense na primeira década republicana. Imperatriz: Ética, 2008.

SOUZA, Rosa Fátima de. Objetos de ensino: a renovação pedagógica e material da escola primária no Brasil, no século XX. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 49, p. 103-120, jul./set. 2013.

TOURINHO, Mary Angélica Costa. As normalistas nas duas primeiras décadas do século XX em São Luís do Maranhão: entre discurso da ordem e a subversão nas práticas. 2008. 188 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2008.

VALENTE, Wagner Rodrigues; BERTINI, Luciane de Fátima; MORAIS, Rosilda dos Santos. Novos aportes teórico-metodológicos sobre os saberes profissionais na formação de professores que ensinam Matemática. Revista Acta Scientiae, v. 19, p. 224-235, 2017.

VIDAL, Diana Gonçalves. Escola nova e processo educativo (1920-1930). In: LOPES, E. T.; FARIA FILHO, L.; VEIGA, C, G. (Org.). 500 anos de educação no Brasil. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. v. 1, p. 497-517.

ZILIO, Carlos. Formação do artista plástico no Brasil: o caso da Escola de Belas Artes da UFRJ. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, n. 66, p. 273-285, mai./ago. 1985. Disponível em: <http://www.carloszilio.com/textos/1985-rev-de-estu-pedag-formacao-artista-ufrj.pdf>. Acesso em: 22 out. 2019

 

Fontes consultadas

 

DIÁRIO DE S. LUIZ. Inaugurado o VI Salão “Artur Marinho”, p. 5, jan. 1949.

O ESTADO DO MARANHÃO [On-line]. São Luís, 2017. Disponível em: <https://imirante.com/oestadoma/online/13092017/pdf/A01.PDF>. Acesso em: 19 nov. 2019.

MARANHÃO. Trabalhos do Congresso Pedagógico. São Luiz: Imprensa Oficial, 1920.

MARANHÃO. Programmas das diversas cadeiras do Curso Normal do Lyceu Maranhense (Para o anno de 1930). Maranhão: Imprensa Official, 1930. Disponível em: <http://www.cultura.ma.gov.br/portal/sgc/modulos/sgc_bpbl/acervo_digital/arq_ad/20161025122557.pdf>. Acesso em: 25 nov. 2019.

MARANHÃO. Programmas aprovados para os Cursos Normal e Complementar, no ano de 1934. Maranhão: Imprensa Official, 1934. Disponível em: < http://www.cultura.ma.gov.br/portal/sgc/modulos/sgc_bpbl/acervo_digital/arq_ad/20161130123010.pdf>. Acesso em: 25 nov. 2019.

MELLO, Luiz de. Cronologia das Artes Plásticas no Maranhão (1842-1930): Pesquisa histórica. São Luís: LithoGraf, 2004.

 

Notas

 

[1] Ainda pouco sabemos sobre sua vida na infância e na adolescência.

[2] Disponível em: http://www.artesculturas.comunidades.net/artes-plasticas-maranhense.

 

Marcos Denilson Guimarães