HEITOR LYRA DA SILVA

HEITOR LYRA DA SILVA

HEITOR LYRA DA SILVA (1879 – 1926)

 

Heitor Lyra da Silva nasceu na Capital do Rio de Janeiro em 5 de março de 1879. Bacharelou-se em Ciências e Letras no Colégio Pedro II e ingressou, em 1896, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde se formou engenheiro civil em 1901. Engajou-se no movimento estudantil da Federação de Estudantes Brasileiros, assumindo a presidência da Federação entre 1904 e 1905. Em 1919, Heitor Lyra viajou para a Europa com o objetivo de pesquisar e estudar malhas ferroviárias, mas, segundo Tobias Moscoso, a viagem teria sido fundamental para que o engenheiro, a partir de então, passasse a se dedicar efetivamente às questões educacionais e sociais (GOMES, 2015).

Heitor Lyra da Silva foi um engenheiro que se tornou educador. Wagner Valente (2008), ao nos apresentar nossos antepassados profissionais de professores de matemática, indica que os formados pelas escolas de engenharia no início do século XX correspondem ao nosso avô profissional. Os engenheiros foram os professores de matemática, visto que o primeiro curso específico para a formação de tais profissionais só correu em 1934, na USP – Universidade de São Paulo (SILVA, 2000). Podemos dizer que, Heitor foi um engenheiro que abraçou o ensino como profissão, como se pode observar na dedicatória feita a ele na Revista de Engenharia (1926, p. 266):

 

A decidida inclinação pelo magistério, manifestada desde os primeiros anos da sua mocidade foi o traço característico da sua existência; deixou, por isso, sinais indeléveis da sua passagem no Curso dos operários das oficinas de Jundiaí, na Escola da Fabrica Serra do Mar, na Escola Assis Ribeiro (Oficinas de Engenho de Dentro), no Curso Jacobina, no Lyceu de Artes e Ofícios, na Escola de Merity e na Escola Técnica Fluminense (ENGENHEIRO..., p. 266).

 

Ao longo de sua carreira, Heitor Lyra dirigiu a Revista de Educação, foi colaborador efetivo da Revista Brasileira de Engenharia de 1920 a 1924 e colaborou como membro da comissão editorial da revista Architectura no Brasil, de 1921 até sua morte. Heitor morreu em decorrência de doença crônica, em 18 de dezembro de 1926, aos 47 anos.

Ressalta-se, ainda, o papel de destaque que Heitor assumiu na Associação Brasileira de Educação (ABE), criada em 1924, na Capital Federal da República. Considerada como o principal núcleo de articulação das questões educacionais de 1920, a referida associação era organizada como órgão de iniciativa privada, com funções de coordenação e incentivo às práticas educacionais em nível nacional (GOMES, 2015).

A década de 1920 deixou marcas significativas da atuação de Heitor Lyra como educador. Os debates entabulados nesse período dirigiram-se a reestruturação do sistema escolar, contemplam diversos graus e ramos do ensino e estão em estreita relação com o projeto nacionalista (CARVALHO, 1988).

O período foi caracterizado por uma cultura psicopedagógica nomeada de “Educação Nova” ou ainda “Escola Ativa” ou ainda “Escola Nova”, cultura esta, assentada na compreensão entre o organismo e o meio circundante, sendo armada com o rigor epistemológico próprio da ciência analítica, ou seja, a observação dos fatos, o manejo do método experimental, a quantificação e a generalização da experiência (MONARCHA, 2009). A Escola Nova traz novos debates e propostas de ensino para além do ensino intuitivo, caracterizado pelo contato direto dos sentidos com os objetos (manuseio e observação visual) e nas impressões obtidas nessa observação para chegar à atividade mental (LOURENÇO FILHO, 1930).

Como educador, Heitor Lyra escreveu o livro Geometria (Observação e Experiência) e imprimiu a Collecção de Problemas práticos de Physica elementar, com o intuito de organizar as caixas de material para experiências dos alunos (ENGENHEIRO ..., 1926, p. 266). Ao dedicar-se à educação, tanto como professor e autor de manuais didáticos, membro fundador da ABE, Heitor Lyra da Silva adquire um reconhecimento de sua expertise no domínio cognitivo como um especialista na área de ensino da matemática, como engenheiro e, é então com base em sua expertise que recebe o convite do governo do Rio de Janeiro para colaborar na educação do país. Ele passa a ser uma pessoa, instituída de poder, que trabalha a serviço do governo e está comprometido com a ação política, desempenha função social, é um mediador entre o conhecimento instituído e o público alvo – os professores - que precisam consumir esse conhecimento. Nessa função social, ele tem o papel de fazer circular a informação, organizar intercâmbios, mediar conflitos e procurar soluções (DUMOLIN; BRANCHE; WARIN, 2005).

Heitor Lyra da Silva, autor de livro didáticos, como Geometria (Observação e Experiência) de 1923; Problemas Práticos de Physica Elementar; já possuía experiência como autor de livro didático e membro da ABE. A partir de 1925, sua expertise ganhou evidência com a nomeação pelo Dr. Miguel Calmon (juntamente com Afrânio Peixoto e Victor Vianna) para compor a Comissão que examina os livros a serem adotados nos diferentes estabelecimentos de ensino primário do Ministério da Agricultura, tendo em vista que o Ministério da Educação é criado somente em 1930. No parecer transcrito no Jornal, a Comissão recomenda:

 

Tomamos a liberdade de sugerir que o Ministério, feitas as aquisições para atender as necessidades do ano corrente, mande em seguida publicar editais indicando para cada matéria do programa das escolas que mantem, quais os requisitos a serem preenchidos pelas obras que pretendem adoção definitiva. Haverá assim verdadeiros concursos a que poderão apresentar-se não só obras já editadas, mas também trabalhos inéditos, porventura superiores a algumas daquelas. Para isso pensamos que deveria ser admitida nesses concursos a apresentação de trabalhos datilografados para proporcionar a autores desprovidos de recursos a adoção de suas obras (COMO ... , 1925)

 

A Comissão pede licença para citar o livro La Réforme l’Enseignement Populaire en Belgique (1919) que reitera a importância do Conselho de Aperfeiçoamento de Educação em estimular a produção de bons livros didáticos. Por fim, o parecer traz a relação dos livros cuja adoção se recomenda de preferência, e, para a matemática são indicados dois livros: A Arithmetica de G. Büchler, em três volumes e para Geometria, o livro de Heitor Lyra da Silva, da Biblioteca de Educação Profissional.

Seguindo as notícias dos jornais da época, foi possível acompanhar os desdobramentos após a publicação das obras recomendadas pela Comissão na qual Heitor Lyra fez parte. No dia 15 de novembro de 1925, pouco mais de seis meses após a publicação do parecer com as obras selecionadas, a Diretoria Geral de Instrução Publica traz no Jornal o Edital:

 

Comunico aos srs. Professores que a partir de amanhã, segunda-feira, ficarão abertas nesta Diretoria as inscrições para os Cursos de orientação, de acordo com os novos programas, do ensino de Geometria e de Geografia, cujas aulas terão início na próxima quinta-feira, 12, na Escola de Bellas Artes, respectivamente, às 16 e às 17 horas. O curso de Geometria será feito pelo Dr. Heitor Lyra da Silva e de Geografia pelo Dr. Delgado de Carvalho.

Distrito Federal, 8 de novembro de 1925.

O Diretor Geral

A. Carneiro Leão.

(DIRECTORIA ..., 1925)

 

Podemos inferir que as recomendações da Comissão no sentido de que as obras selecionadas subsidiassem os requisitos para os programas de ensino de cada matéria foram atendidas. O curso anunciado no Edital indica a formação de professores para os novos programas, e, no que se refere ao ensino de Geometria, uma vez mais, Heitor Lyra da Silva está a frente do curso proposto.

Revela-se a expertise de Heitor Lyra da Silva ao ser chamado por Carneiro Leão[1], diretor da Instrução Municipal no Rio de Janeiro a participar na categoria de especialista na elaboração dos programas de ensino para o primário, que ocorreu de 1922 a 1926. A Comissão foi constituída por “inspetores de ensino: Paulo Maranhão, Deodato de Moraes; professoras catedráticas: Eulina de Nazareth, Floripes Angiada Lucas e Isabel da Costa Pereira Mendes; especialistas: Heitor Lyra da Silva, J.P. Fontenelle; Delgado de carvalho, Carlos Porto Correia, Theophilo Moreira da Costa, Nereu Sampaio, Edgard de Mendonça e Arthur Joviano (EDITAL, 1926, p. 14). Paulilo (2013), destaca o trabalho lento, de experimentação, de observação de aulas, de atenção às críticas e julgamentos, contando com a contribuição do professorado. Por fim, ressalta que o Distrito Federal, capital do Brasil, “precisa de uma instrução que seja a segurança da melhor formação da nova geração brasileira. Só a experiência de um professorado dedicado e inteligente poderá consegui-la” (PROGRAMMAS ..., 1926).

Ao declarar à imprensa, em março de 1926, o papel que teve na elaboração dos programas de ensino das escolas do Distrito Federal, Heitor Lyra da Silva enfaticamente comunicou ter recebido o convite do Diretor da Instrução Pública para colaborar na elaboração dos programas de aritmética, física e especialmente de geometria.

Um pouco depois, o Jornal do Brasil de 30 de marco de 1926 publica uma entrevista com Heitor Lyra da Silva em que ele comenta e avalia os novos programas de ensino das escolas do Distrito Federal do Rio de Janeiro. Alguns trechos reiteram o caráter inovador do programa, assim como os princípios que sustentaram as mudanças. Ao responder quais seriam as novas mudanças, Heitor diz:

 

O Sr. Diretor conseguiu imprimir aos novos programas uma orientação uniforme, uma coordenação tão perfeita quanto possível entre as diversas matérias e o que é mais, conseguiu que eles revelem a cada momento o contato com a vida real. A escola, a escola primária popular principalmente, alheia ao meio, indiferente aos interesses reais e imediatos dos alunos, ensinando-lhes coisas cuja utilidade eles não percebem e a que não se podem afeiçoar em prejuízo das noções que lhes são mais urgentes, mais necessárias à sua saúde, à sua vida, e ao seu futuro, não é apenas um absurdo, é uma monstruosidade (OS NOVOS ..., 1926).

 

O que Heitor Lyra destaca como inovador no novo programa diz respeito à proximidade do ensino com a vida prática e real, com as necessidades postas por uma formação popular. Neste sentido, o caráter de observação e experimental que seu livro enfoca para o ensino de geometria indica familiaridade com as diretrizes normativas levadas a cabo por Carneiro Leão. A entrevista segue discutindo sobre o aparelhamento de materiais didáticos nas escolas do Rio de Janeiro de modo a pôr em prática as orientações do novo programa. Heitor reconhece a fragilidade do contexto educacional do Distrito Federal, mas diz que não se deve exagerar, visto que o “verdadeiro mestre sabe fazer prodígios com recursos insignificantes e que a própria necessidade de vencer dificuldades procurando elementos de observação nas coisas e nos seres que nos cercam, resulta um excelente elemento de educação” (OS NOVOS ..., 1926).

O novo programa[2]de 1926, assinado por A. Carneiro Leão, configurou-se por “sensível modificação do ensino”, embora não fosse totalmente desconhecido dos professores, já que o puderam acompanhar em cursos de férias desde 1923 e por instruções e circulares de suas ideias básicas. Várias escolas, a partir de 1924, vinham experimentando as diretrizes. Conclamava uma escola que preparasse o aluno para a vida, para o trabalho e que contribuísse para um equilíbrio social: “Nada de coisas abstratas, de textos mortos, que se compreendem mais ou menos e se recitam servilmente” (PROGRAMMAS..., 1926, p. 10).

O programa é detalhado e ocupa pelo menos sete laudas do jornal. As matérias ligadas à Matemática eram: Aritmética, Geometria, Desenho e Trabalhos manuais. As principais sugestões para o ensino da Aritmética: não incluir expressões longas, trabalhar sobre o fato concreto, aplicar a aritmética e ensiná-la relacionada aos fatos e às necessidades correntes; recomenda-se exercícios sobre salários, custos de mercadorias, câmbio e operações que permitam resolver problemas da vida doméstica, social, nacional ou internacional.

Em relação à Geometria recomenda-se que, tanto quanto possível, esteja relacionada com a aritmética, trabalhos manuais, sobretudo o desenho, a modelagem, à física e a geografia. O Desenho, que ensina a observar, educa a visão, desenvolve as faculdades intelectuais, desde a imaginação até a memória e ao raciocínio. Será por meio dos Trabalhos manuais que as crianças farão um aprendizado vivo, animado e eles devem ser executados indistintamente pelos dois sexos.

A Pedagogia Moderna é tomada como referência a ser seguida – ensinar essa disciplina por meio de suas aplicações, o que seria mais útil e interessante. Oito princípios fundamentais são sugeridos no programa: 1) tratar cada assunto diversas vezes, aprofundando-o gradualmente; 2) fazer com que os discípulos observem e manejem objetos apropriados; 3) fazer as aplicações aritméticas com pequenos números, empregando as operações e acentuando as relações entre essas; 4) cultivar muito o cálculo mental; 5) dar lições breves, exigir respostas simples e por meio de exemplos concretos fazer as crianças adquirirem facilidade de usar números abstratos; 6) relacionar os problemas com questões de interesse dos alunos – geografia, estatística, etc; 7) estimular a iniciativa dos alunos em formular problemas; 8) evitar o mais possível as definições. Da mesma maneira, o ensino da geometria trazia uma carga forte da educação nova: a geometria deveria ser ensinada de modo intuitivo, com o auxílio da observação e experiência. Notadamente, a mão de Heitor Lyra da Silva transparece fortemente, pois os princípios aqui formulados estão presentes no seu livro Geometria (Observação e Experiência).

Outro preceito ainda é inserido no programa – aproveitar todas as ocasiões para fazer aplicações práticas de interesse na vida real, identificado no livro de Heitor Lyra como a inserção de fotografias de paisagens do Rio de Janeiro para representar conceitos geométricos. Os exercícios de modelagem e de armação em papel são recomendados para acompanhar o ensino da geometria.

O primeiro princípio anunciado no programa, de estudar o mesmo assunto diversas vezes, é também um destaque da obra Geometria (Observação e Experiência), na qual na introdução, o autor esclarece:

 

a exposição da matéria está feita segundo o critério que já foi denominado dos círculos concêntricos, e que consiste em seguir, em vez de uma ordem por assim dizer linear aberta, outra em que se fornece a princípio um conhecimento superficial de toda a matéria e se volta depois a cada parte, uma segunda e mesmo uma terceira vez, para estuda-la com maior minucia (SILVA, 1923, p. 7).

 

Em julho de 1926, após receber críticas, uma segunda versão do Programa[3]é publicada no Jornal do Brasil. Nessa versão, Carneiro Leão afirmou que a comissão recebeu as críticas e sugestões feitas pelo professorado e que diversas observações foram consideradas procedentes e aceitas. Acrescentou: “Os interessados diretos pela nossa instrução, ao invés de receberem para executar um programa organizado a sua revelia, tiveram a oportunidade de contribuir, colaborando com a administração, para que a obra agora ultimada seja o resultado do trabalho e das aspirações de todos” (NOVOS ..., 1926, p. 13). Um dos acréscimos que o novo Programa apresentou foi a bibliografia, que não aparecia na versão anterior. Aqui, novamente o expert Heitor da Lyra Silva mostrou sua competência. Para a Aritmética, as recomendações incluíam: Parker – conferências; J. Vera – Arithmetica; Brukner – Arithmetica; Calkins – Lições das Coisas; C. Laisant - Initiation Mathematique; Moreux – Pour comprendre l’Arithmetique. Para a Geometria, evidentemente, seu livro Geometria (Observação e Experiência); A. Vera – Geometria; C. Laisant - Initiation Mathematique; Moreux - Pour comprendre la geometrie; Clairaut – Geometrie; Wentworth – First steps in geometry; W. Campbell – Observational geometry; C. Bourlet – Geometrie.

Na elaboração dos programas de ensino das escolas do Distrito Federal, Heitor Lyra da Silva imprimiu ideias que há muito tempo defendia: orientação uniforme a todas as matérias e estas em sintonia com a vida real. Nas repercussões do novo Programa, na imprensa, não faltaram críticas a essa nova proposta, entre elas que tais programas eram muito extensos, foram feitos para poucas escolas que teriam condições de aplicá-los por não estarem aparelhadas para bem executar as orientações. (CRONICA ..., 1926).

Para além da atuação e contribuição de Heitor Lyra da Silva na reforma dos programas do Distrito Federal, o livro de sua autoria Geometria (Observação e Experiência) inaugurou uma nova abordagem para o ensino de geometria. Na introdução da obra, o autor anuncia uma proposta modernizadora para o ensino de Geometria, apropriada da circulação internacional de modelos pedagógicos, conforme indicam as referências bibliográficas no final do livro de autores estrangeiros, em particular dos Estados Unidos[4] e da França[5].

O livro faz parte da Coleção Biblioteca de Educação Geral destinada ao ensino elementar e constituem-se como manuais didáticos e guias ou cadernos para trabalhos práticos de todas as matérias que comportem uma parte experimental. De acordo com o prefácio da obra, tais características dos diversos volumes que compõe a coleção são fundamentais por: simplificar os programas, empregar linguagem correta, mas sempre extremamente fácil, dar ao ensino um cunho essencialmente nacional e objetivo, fazer a indução predominar sobre a dedução, substituindo a memória das palavras pela dos fatos, tentar melhorar quanto possível a parte material do livro, procurando torna-lo atraente.

O contexto e pressupostos assumidos na coleção em que a produção do livro de Heitor Lyra se insere reiteram o momento histórico de circulação do movimento pedagógico da Escola Nova. A ênfase no caráter experimental, que sinaliza o caminho do raciocínio indutivo, partindo da observação de fatos, da exploração de semelhanças e diferenças, que no ensino de geometria, se caracterizam pela identificação de propriedades geométricas, no manuseio de objetos, em questionamentos, inferências até a caracterização e generalização do objeto geométrico. Trata-se do contraponto ao chamado método tradicional, amplamente vigente ao longo do século XIX, em que a memorização, o método de perguntas e respostas imperaram, assim como o raciocínio dedutivo, em que a organização lógica dedutiva determina o caminho do ensino. Está em jogo, o caráter experimental, apoiado no raciocínio indutivo, exploratório como sustentação da nova proposta de um ensino de geometria pautado na observação e experiência, como dito no título do livro de Heitor Lyra da Silva.

Heitor Lyra traz para o ensino de geometria no curso primário inovações no sentido de aproximar o estudo de geometria aos aspectos da vida real, em especial ao trazer elementos do cotidiano do aluno para serem observados, comentados, experimentados como processo de ensino. No programa de Geometria do primeiro ano escolar consta: “fazer o estudo dos sólidos geométricos constantes do programa deste ano, pela apresentação de formas análogas as encontradas na natureza e na indústria” (PROGRAMMAS..., 1926, p. 15). No seu livro, Heitor traz a foto do lago na entrada da Barra no Rio de Janeiro para representar a superfície tranquila da água como um plano horizontal, ou ainda, a foto do Palácio do Catete como representante de um paralelepípedo. O caráter inovador da proposta de Heitor Lyra pode ser aprofundado em estudos já desenvolvidos sobre a obra (SILVA, LEME DA SILVA, 2019; LEME DA SILVA, 2019; LEME DA SILVA, 2021).

Os dirigentes políticos e a administração pública são obrigados, em certa medida, a consultar os experts de modo que a sua expertise (especialização) incorpore-se ao processo de construção do conhecimento. O expertHeitor Lyra da Silva atuou ativamente com sua expertise como um mediador e divulgador em relação aos programas de ensino de ensino da Instrução Municipal no Rio de Janeiro entre 1922 a 1926 que foram elaborados por ele e outros especialistas . Ele estava munido de características definidoras de expert: conhecimentos; competência; relevância social; intuição; justeza no julgamento; capacidade de comunicar; inteligência e criatividade; qualidades estas que justificaram a convocação do Estado para atuar na Reforma da Instrução Municipal do Rio de Janeiro. Não apenas pela sua atuação como professor de matemática em vários graus do ensino, autor de manuais didáticos, mas também pelos cargos administrativos e de liderança que vivenciou, ele demonstrou aos pares e ao governo a competência para assumir um papel importante na definição do que deveria ser ensinado nas escolas primárias.

 

Referências

 

CARVALHO, Marta Maria Chagas. Notas para reavaliação do Movimento Educacional Brasileiro (1920-1930). Cadernos de Pesquisa, 66, p. 4-11, ago.,1988.

CHABURI, Jonathas de Paula; MACHADO, Maria C. Gomes. Notas biográficas de um educador brasileiro: Antônio Carneiro Leão. REVELLI: Revista de Educação, Linguagem e Literatura, v. 10, c. 1, p. 70-98, maio 2018.

DUMOULIN, Laurence.; BRANCHE, Stéphane.; ROBERT, Cécile.; WARIN, Philippe Avant-propos pour une approche politique de l’expertise. In: DUMOULIN, L.; LA BRANCHE, S.; ROBERT, C.; WARIN, P. (org.). Le recours aux experts: raisons et usages politiques. Grenoble: Presses Universitaires, p. 15-35, 2005.

GOMES, Clecia Aparecida. Os engenheiros da Associação Brasileira de Educação (ABE): confluências entre as ideias educacionais e urbanas na cidade do Rio de Janeiro nos anos iniciais do século XX. 2015. 191 p. Dissertação (Mestrado em Educação). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2015.

LEME DA SILVA, Maria Célia. Processos de objetivação de saberes: o papel do expert e da expertise e os ensinos de Geometria e Desenho. Acta Scientiae, v. 21, p. 13-26, maio/ jun. 2019.

LEME DA SILVA, Maria Célia. Wentworth & Hill e Heitor Lyra da Silva: Circulação e apropriação de uma geometria intuitiva. Perspectiva, v. 39. n.1, p. 1-17, 2021.

LOURENÇO FILHO, Manoel Bergström. Introdução ao estudo da escola nova. São Paulo, SP: Cia Melhoramentos, 1930.

MONARCHA, Carlos. Brasil arcaico, escola nova: ciência, técnica & utopia nos anos 1920-1930. São Paulo, SP: Editora UNESP, 2009.

PAULILO, André Luiz. A reforma da educação como perícia: questões do fazer administrativo nos anos 1920. Revista História da Educação, v. 17, n. 41, p. 43-57, set./dez. 2013.

SILVA, Circe Mary Silva da; LEME DA SILVA, Maria Célia. Observação e Experiência como fio condutor da Geometria de Heitor Lyra da Silva. Zetetiké, Campinas, SP, v.27, p.1-18, 2019.

SILVA, Circe Mary Silva da. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e a formação de professores de Matemática. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPEd, 23. Anais... Caxambu: ANPEd, 2000.

VALENTE, Wagner Valente. Quem somos nós, professores de matemática? Caderno Cedes. Campinas, 28(74), p. 11-23, 2008.

 

Fontes consultadas

 

COMO ESCOLHER OS LIVROS ESCOLARES. O Paiz(RJ), 9 de abril 1925, p. 4.

CRONICA DE ENSINO. Jornal do Brasil (RJ). 14 abril 1926, p. 7.

DIRECTORIA GERAL DE INSTRUCÇÃO PUBLICA. Jornal do Brasil (RJ), 15 novembro 1925, p. 19.

EDITAL. Jornal do Brasil (RJ) 23 julho 1926, p.14.

ENGENHEIRO HEITOR LYRA DA SILVA. Revista Brasileira de Engenharia, Tomo XII, n. 6, p. 265-267, 1926.

OS NOVOS PROGRAMMAS DE ENSINO DAS ESCOLAS DO DISTRICTO FEDERAL. Jornal do Brasil (RJ), 30 março 1926, p. 7.

ProgramMas para o Ensino Primário diurno nas Escolas do Distrito Federal. 25 fevereiro 1926 Disponível em https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/220283, acesso em 20 de maio de 2020.

Novos Programas para o Ensino Primário diurno nas Escolas do Distrito Federal, 23 julho 1926. Disponível em https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/220296 Acesso em 20 maio de 2020.

SILVA, Heitor Lyra da. Geometria (Observação e Experiência). Rio de Janeiro: Livraria Editora Leite Ribeiro, 1923. Disponível em https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/163569 Acesso em 28 julho de 2021.

 

Notas:

 

[1] Antônio Carneiro Leão (1887 – 1966) foi professor e educador brasileiro, além de imortal da Academia Brasileira de Letras. Assumiu o cargo de Direção Geral de Instrução no Rio de Janeiro, capital da República, entre 1922 a 1926 (CHAGURI, MACHADO, 2018).

[2] Disponível em repositório https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/220283. Acesso em 20 de maio de 2020.

[3] Disponível em repositório em https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/220296. Acesso em 20 de maio de 2020. Nada encontrou-se sobre alteração dos nomes na Comissão, assim infere-se que os novos programas tenham sido reelaborados pela mesma equipe inicial.

[4] Estudo detalhado sobre as apropriações de Heitor Lyra na referida obra em relação ao autor estadunidense pode ser em lido em Leme da Silva (2021).

[5] Estudo detalhado sobre as apropriações de Heitor Lyra na referida obra em relação aos autores franceses referenciados pode ser lido em Silva e Leme da Silva (2019).

 

Circe Mary Silva da Silva

Maria Célia Leme da Silva