MARIA AMABILE MANSUTTI

MARIA AMABILE MANSUTTI

MARIA AMABILE MANSUTTI (1949 -)

 

Maria Amabile Mansutti, neta de imigrantes italianos, nasceu na década 1940 em Santana, bairro da Zona Norte de São Paulo. Filha do casal Almafi Mansutti e Mercedes Mansutti. Licenciou-se em Pedagogia pela Faculdade de Educação da USP - Universidade de São Paulo, adicionando ao currículo profissional diversos cursos, entre eles a especialização em Didática da Matemática pela PUC-SP-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Sua carreira como professora primária se iniciou ainda quando jovem, na época com apenas dezenove anos. Era estudiosa e apreciadora da Teoria Psicogenética de Jean Piaget, visto ter encontrado nela base para o trabalho experimental que pretendia realizar e porque considerava importante ao professor o conhecimento das etapas da aprendizagem. Seguiu sua trajetória como professora das séries iniciais, técnica em educação, gestora e formadora de professores, atuando em diversas redes de ensino (municipal e estadual) e em escolas particulares da capital paulista (MANSUTTI, 2018; SILVA, 2020). A própria Mansutti (2020), em entrevista concedida ao professor e pesquisador Wagner Rodrigues Valente, rememora a época trazendo à baila notas históricas dos bastidores do trabalho coletivo cultivado com acertos significativos no Instituto Municipal de Estudos e Pesquisas (IMEP). Esses trabalhos coletivos foram materializados em documentos curriculares relativos à produção de uma nova matemática dos primeiros anos escolares.

A professora Mansutti sempre manteve seu interesse pela Educação Matemática, vindo a integrar a equipe da Secretaria da Educação Fundamental (SEF) do Ministério da Educação (MEC), que elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN de Matemática para o Ensino Fundamental. Contribuiu com o Programa Parâmetros em Ação, que abarcou mais de três mil municípios brasileiros, e foi consultora de programas educacionais voltados para Jovens e Adultos, desenvolvidos pela Alfasol (Alfabetização Solidária) junto ao Ministério de Educação de São Tomé e Príncipe. Em 2005 e 2006, em âmbito nacional, foi agraciada com o Prêmio Jabuti, na categoria livro didático. O primeiro prêmio, Matemática e fatos do Cotidiano, com a coleção Viver, Aprender - Educação de Jovens e Adultos, editora Globo-SP. O segundo prêmio, Alfabetização, também com a coleção Viver, Aprender – Educação de Jovens e Adultos, também da editora Globo-SP. A professora Mansutti, manteve-se sempre proativa dentro e fora do espaço escolar, fazendo perceber que se constituir uma educadora matemática requer o desenvolvimento de uma postura investigativa e ação aguçada no terreno escolar. Atualmente, integra, a coordenação do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária-CENPEC (MANSUTTI, 2018).

Há de se considerar ainda, que a professora Maria Amabile Mansutti, vivenciou um contexto histórico de efervescência no cenário educacional brasileiro que se baliza entre as décadas de 1960 e 1970. A primeira diz respeito à promulgação da LDB 4.024/1961, que tramitou por cerca de treze anos no Congresso Nacional. A segunda, após dez anos, à promulgação da LDB 5.692/1971. Ainda há de destacar que essa última unificou os anteriores cursos primário e ginásio, agrupando-os num só grau escolar para atender crianças e jovens na faixa etária dos 7 aos 14 anos nos estabelecimentos oficiais de escolaridade obrigatória. A nova legislação não indicou métodos ou técnicas didáticas, nem mesmo entra em pormenores sobre conteúdo programático das disciplinas, áreas de estudos ou de atividades, todavia, implicou na definição de objetivos na mudança de concepção do currículo escolar e do ensino nela presentes, levando a uma integração “vertical” e “horizontal” no sentido de garantir uma perspectiva de continuidade das oito séries propostas. A integração vertical expressa a sucessão dos graus e séries de ensino no que eles significam como dificuldades crescentes de ensino e aprendizagem, dificuldades estas de soluções propostas pelas ciências da educação, principalmente a Biologia e a Psicologia. Já, a integração horizontal expressa as variações de ensino, conforme objetivos diferentes, dentro de um mesmo grau (BREJON, 1977).

Vê-se, portanto, que tal proposta de integração “vertical” e “horizontal” (BREJON, 1977, p. 112-113) já estava nas orientações do Decreto nº7.834 de 12 dezembro de 1968, que funda o IMEP, sendo reconhecido nacionalmente como a primeira escola de 1º grau no Brasil que oferecia aos alunos oito anos de escolaridade com localização na Bela Vista (tradicional bairro Bexiga no centro de São Paulo), onde hoje está a Escola Municipal Celso Leite Ribeiro Filho. Em seus argumentos, Mansutti ainda relata que o IMEP foi criado

 

[...] porque o Paulo Natanael de Souza, então secretário de Educação do Município, tinha interesse em fazer parte do Conselho Nacional de Educação essa experiência inovadora poderia credenciá-lo. Isso quando a ditatura estava reprimindo as escolas experimentais justamente por achá-las alternativas demais. Porém, tudo era inovador no IMEP. Foram convidados os professores do primário da rede municipal e os do secundário vieram dos ginásios vocacionais e das Escolas Experimentais do estado, inclusive de escolas que estavam sendo boicotadas (MANSUTTI, 2018, p.237).

 

A professora Mansutti, (2018), com o excerto acima, assevera a importância do IMEP como uma experiência inovadora para educação de São Paulo, quiçá para o sistema escolar brasileiro. É importante enfatizar que Mansutti esteve no exercício da docência no IMEP. Lá, lecionou matemática nos primeiros anos escolares e teve a oportunidade de conhecer, trabalhar e tornar-se amiga da professora Lydia Condé Lamparelli, com quem travou diálogos e trocas de experiências sobre o ensino da Matemática durante anos. Segundo Valente et al.(2020) Mansutti e Lamparelli trabalharam de modo integrado. Os autores acentuam ainda que Lamparelli municiou Mansutti com textos específicos para o ensino de matemática com base em propostas do Movimento da Matemática Moderna (MMM) e enfatizam que houve um duplo desafio para as professoras: “construir um trabalho para uma escola integrada de oito anos e incorporar as referências do MMM” (p.73). Maria Amabile Mansutti pondera que o IMEP teve por finalidade testar muitas das propostas que Lydia Lamparelli publicou nos seus livros didáticos, visto que agregava professores de diferentes instituições para troca de experiências sobre o ensino de Matemática, (ALMEIDA; VALENTE, 2018).

Percebe-se que a professora Maria Amabile Mansutti, teve status de expert em educação devido à sua expertiseprofissional relacionada à constituição de uma nova organização do currículo de oito anos, mais especificamente, na produção de novos saberes relativos à matemática das primeiras séries escolares do Ensino do 1º grau. Por conseguinte, participou ativamente das comissões do ensino público paulista nos processos e dinâmicas de elaboração de “novos de saberes no campo pedagógico” (HOFSTETTER; SCHNEUWLY, 2017, p.57), para o ensino e para a formação de professores oficializados em documentos oficiais paulistas, como pode ser exemplificado na identificação de seu nome na Ficha Técnica de um exemplar da coleção Matemática Ensino de 1º grau (4ª serie), autoria com Lydia Lamparelli (1977) (http://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/225222). Nesse exemplar, pode-se considerar dois grandes blocos de conteúdo: Números e Relações e Geometria. Nota-se, também, seu nome entre os colaboradores da análise crítica do Guia Curricular de Matemática, documento publicado em 1975 (http://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/225223). O Guia de Matemática foi redigido pelos professores Almerindo Marques Bastos, Anna Franchi e Lydia Condé Lamparelli envolvidos com o Movimento da Matemática Moderna-MMM nos anos de 1960. O documento de cunho oficial apresenta o programa de Matemática detalhado por quatro temas, a saber: Relações e Funções, Campos Numéricos, Equações e Inequações e Geometria (SÃO PAULO, 1975). Outro documento identificado com o nome da professora Amabile refere-se ao Subsídio para Treinamento de Professores – Matemática em 1979 (https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/222758). Nele, também, constam os nomes das professoras Maria Dolores Costa e Maria Lúcia Galvão Leite Travassos, na Ficha que identifica a equipe de Matemática. O referido documento foi organizado em três tópicos: o primeiro tópico, Introdução do programa de matemática apresentado nos Guias Curriculares propostos para as matérias do Núcleo Comum o 1º Grau – Secretaria de Estado da Educação. O segundo tópico, Visão Geral da Programação de matemática. O terceiro e, último tópico, Considerações sobre o desenvolvimento dos temas do Programa de Matemática. Mais adiante, em outro documento, intitulado Projetos de Capacitação de Recursos Humanos através de Curso Optativo - Ensino de 1º e 2º graus nos anos de 1981 e 1982 (

), também está presente o nome de Mansutti junto das professoras Eliana Der Agopean Guardia, Maria Lúcia Galvão Leite Travassos e a colaboração crítica da professora Sandra Lúcia Barbato. Este documento foi recomendado aos professores que ensinam Matemática das séries iniciais do 1º Grau e teve como objetivo oferecer aos professores informações de natureza teórica assim como metodológica. O documento foi organizado em cinco cadernos assim distribuídos: Módulo 1 (Introdução/considerações sobre o curso); Módulo 2 (Número e Numeração); Módulo 3 (Números Naturais); Módulo 4 (Números Racionais); Módulo 5 (Exercícios para professores).

Em suma, por todas as referências apresentadas no texto, podemos atribuir a condição de expert à professora Maria Amabile Mansutti, por sua expertise profissional enraizada no campo educacional paulista sob a égide de suas experiências, atitudes e conhecimentos desenvolvidos ao longo de sua trajetória profissional, em equipes de elaboração de programas para o ensino relativo à matemática nas séries iniciais, especificamente, na produção de materiais para formação continuada de professores, guias curriculares e livros didáticos apresentados como fontes inovadoras de novos saberes.

 

REFERÊNCIAS

 

ALMEIDA, André Francisco de; VALENTE, Wagner Rodrigues. Os expertse a produção de saberes para a docência: primeiros estudos do acervo Lydia Lamparelli. Linhas Críticas, Brasília, DF, v-25, p.318-332. 2018.

AMABILE MANSUTTI, Maria. Nenhum movimento curricular no Brasil teve força para mudar a prática dos professores em matemática. Cadernos Cenpec | Nova série, [S.l.], v. 8, n. 1, ago. 2018. ISSN 2237-9983. Disponível em: <http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php/cadernos/article/view/396>. Acesso em: 14 set. 2021.

BREJON, Moysés. Estrutura e funcionamento do ensino de 1º e 2º graus: leituras. 8ª ed. São Paulo: Pioneira, 1977.

HOFSTETTER, Rita; SCHNEUWLY, Bernard; FREYMOND, Matilde de.; BOS, Fronçois. Penetrar na verdade da escola para ter elementos complemente de sua avaliação: a irresistível institucionalização do expert em educação (século XIX e XX). In: HOFSTETTER, R.; VALENTE, W. R. Saberes em (trans) formação – tema central da formação de professores. São Paulo: LF Editorial, 2017, p.55-112.

MANSUTTI, Maria Amabile. Entrevista concedida a Wagner Rodrigues Valente. São Paulo, 25/05/2020.

SILVA, Marylucia Cavalcante. A expertise de uma educadora matemática paulista – notas históricas da conversa com a professora Maria Amabile Mansutti. REMATEC, v. 15, n. 34, p. 212-225, 1 set. 2020. Disponível em: http://www.rematec.net.br/index.php/rematec/article/view/271. Acesso em: 14 set. 2021.

VALENTE, Wagner Rodrigues. Os experts e a sistematização da Matemática para a formação de professores dos primeiros anos escolares, 1890-1990. Projeto de Pesquisa aprovado no FAPESP. UNIFESP – Campus Guarulhos, SP set. 2018.

VALENTE, Wagner Rodrigues. ALMEIDA, André Francisco de. SILVA, Marylucia Cavalcante. Saberes em (Trans)formação e o Papel dos Experts: currículos, ensino de matemática e formação de professores, 1920-2020. Acta Sci. (Canoas), V. 22(5), 65-83, set./out, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/217026.

 

Fontes Consultadas

 

BRASIL, Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus, e dá outras providências. Diário Oficial da União,Brasília, DF, 12 ago. 1971.

SÃO PAULO (Município)Secretaria de Educação. Instituto Municipal de Educação e Pesquisa-IMEP. Decreto nº 7834 de 12 de dezembro de 1968.

______. (Estado). Guias curriculares para o ensino de 1º grau. São Paulo: CERHUPE, 1975. 74 p. Disponível em: http://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/225223. Acesso em: 3 jul. 2021.

______. (Estado). Matemática: ensino do 1º grau, 4ª série. 5ª ed. São Paulo, Edart, SP, 1977. Disponível em: http://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/225222. Acesso em: 3 jul. 2021.

______. (Município). Subsídio para Treinamento de Professores – Matemática,1979. Disponível em: http://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/22275. Acesso em: 3 jul.2021.

______. (Município). Projeto de Capacitação de recursos humanos & curso optativo –Ensino de 1º e 2º grau/Matemática para Professores de 1ª a 4ª séries, São Paulo, 1982. Disponível em: http://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/222759. Acesso em: 3 jul.2021.

 

Marylucia Cavalcante Silva